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sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Uma retrospectiva dos melhores discos de 2011

Sempre fui um entusiasta das listinhas de final de ano: comentava álbum por álbum em ordem de preferência (uma insanidade sadia). Como 2011 foi um ano diferente, mudarei minha “rotina”, e vou destacar o que valeu a pena – em parágrafos, para facilitar a minha e a sua vida. Mas não estranhe, lá no final você vai encontrar a famosa listinha.


Nosso ano

Não me lembro de ter presenciado um ano tão rico na música brasileira. Uma série de músicos contemporâneos se lançou no mercado com belas obras, e nos 45 do segundo tempo ainda contamos com o refinado álbum da Gal Costa, em parceria com o Caetano (e seu filho Moreno Veloso). Já que preciso começar por alguém, a dupla vale a pena. O álbum “Recanto”, lançado no final do ano, consegue sintetizar muitas tendências da década: autotunes, batidão do funk e música eletrônica são elementos que orientam o álbum e dão uma mostra do que está em voga. A produção de Caetano, após acertar o tom em “Zii e Zie” (um dos seus melhores trabalhos recentes), é novamente certeira. Em ¨Recanto¨, ele demonstra suas convicções sobre a música atual na obra de Gal, que através de sua voz inconfundível se abre para um futuro maduro. “Miami Maculelê” e sua miscigenação percusiva, que une funk dos morros cariocas ao maculelê de Santo Amaro, bem que merecia ser um hit de verão.

Além de Gal, outra voz feminina ecoou em 2011: Juçara Marçal, ao lado do saxofonista Thiago França e do violonista Kiko Dinucci (guarde esse nome). O trio lançou o belíssimo álbum “Metá Metá” – que também dá nome ao coletivo musical. “Vale do Jucá”, canção do músico pernambucano Siba Veloso (Mestre Ambrosio e Siba e Fuloresta) apresenta com elegância o que virá: álbum que transita por uma MPB de qualidade, que ficou esquecida há alguns anos, e um afro-samba que parece nunca ter se firmado como um gênero musical popular – embora o termo esteja agregado à “boa MPB”. É difícil ouvir faixas como “Vias de Fato” e “Oranian” e não lembrar do álbum lendário de Vinicius de Moraes e Baden Powell. As qualidades musicais do trio paulista reanimam a tão empobrecida cena musical que é a MPB atual, que parecia bem próxima do seu enterro.

Vias de Fato by Metá Metá

Outro paulista que acertou os pontos em 2011 foi Romulo Fróes, que já havia chamado atenção da crítica especializada há dois anos com o álbum duplo “No Chão sem o Chão” (2009).  Romulo aponta novos caminhos para o samba em “Um Labirinto Em Cada Pé”. Em uma obra bem mais homogênea melodicamente que a anterior, o artista busca influências que vão de Nelson Cavaquinho à Itamar Assumpção. Reinventando elementos do samba, como as marchinhas tortas em “Tua Beleza” e “Jardineira” (a segunda dialoga com “A Jardineira”, um clássico na voz de Orlando Silva).  Narrando as estripulias de Jesus pelo Rio de Janeiro em “O filho de Deus”, consegue flertar com Itamar Assumpção e João Bosco.  “Um Labirinto...” compõe um universo de tons cômicos e nonsense: elementos que andam carentes no país. O álbum ainda conta com a participação da dama do samba paulista Dona Inah e com Arnaldo Antunes, contribuindo no excelente samba-rap “Rap em Latim”.


Sobre os reis

Pois bem, um parágrafo dedicado a Romulo Fróes e outro a Kiko Dinucci não são suficientes. Antes do ano acabar, os amigos paulistas não se acomodaram com suas respectivas  obras e resolveram reunir-se com o violonista Rodrigo Campos e com o baixista e produtor Marcelo Cabral para dar luz ao supergrupo Passo Torto. O resultado nada mais é do que uma obra-prima, sem tirar nem pôr. E meus elogios idiossincráticos não param por aí: o que esses músicos produzem é, provavelmente, a grande obra nacional do novo século – somente “Estudando o Pagode”, de Tom Zé, me vem a mente como possível concorrente.

Em arranjos traçados somente através das cordas dos violões, cavaquinho, contrabaixo, violino... o álbum é trabalhado com melodias graves transportando à uma sonoridade melodicamente densa. Subvertendo o samba, o Passo Torto tem uma consciência impressionante em lidar com toda uma tradição musical, respeitando-a mesmo quando suprimindo alguns dos elementos básicos do gênero - a percussão, por exemplo. Mas a obra transcende o samba, que funciona somente como um ponto de partida. Algumas letras são como contos sobre a cidade de São Paulo, que fariam João Antônio (contista brasileiro) se emocionar, e revelam um universo que se assemelha ao que Paulinho da Viola produziu em “Nervos de Aço” (1973). Me perdoem por não ficar citando faixas desse disco por aqui, afinal ele é basicamente recheado de pontos altos. Faço melhor passando o LINK para baixar “Passo Torto” direto do site oficial.


Em outros cantos

O ano sem dúvida foi lindo para o Brasil. Porém, é necessário comentar aquilo que valeu a pena pelos outros cantos do mundo. Começando por um álbum contestadíssimo pela crítica e o grande público: como já é lugar-comum, o grupo britânico Radiohead acertou. Após o eclético e “acessível” “In Rainbows” (2007), eles retornaram às experimentações eletrônicas que marcaram seus três álbuns antecessores. Marcado por uma maturidade admirável, “The King of Limbs” abre com o afrobeat “Bloom”, que dialoga com Flying Lotus (produtor americano); vai de encontro ao pop dançante de “Lotus Flower” (videoclipe que se tornou hit no youtube com as dancinhas de Thom), passando pela melancolia lo-fi de “Give Up The Ghost”, e fechando com a seca e direta “Separator”, faixa que contêm os versos “If you think this is over/ Then you're wrong” (Se você pensa que isso acabou / então você está errado), que deu margem para muitos acreditarem que as oitos faixas lançadas via internet no início do ano eram uma prévia... o disco físico não trouxe novidades e “The King of Limbs” foi considerado abaixo do nível da banda pelos fãs em geral.

Polêmicas à parte, vamos a uma cantora de renome que produziu um álbum bem aceito pela maioria: Kate Bush e seu “50 Words for Snow”, é invernal (como o título propõe) e seguro. Demarcado por uma média de faixas longas, Kate Bush traz algumas das melhores baladas de 2011 – como a que abre o disco “Snowflake”. Em geral, os arranjos são clássicos demarcados pelo piano e sua voz tão característica, mas também há espaço para uma levada retrô como “Wild Man, que faz lembrar o clássico álbum “Hounds of Love” (1985). Seu novo trabalho ainda traz o dueto da cantora com Elton John em “Snowed In At Wheeler Street”.


Em universo obscuro

Em um rápido passeio pela seara eletrônica, é possível citar três destaques - entre outros excelentes: os americanos FaltyDL, Machine Drum e o britânico Patten. Em caminhos distintos, Drew Lustman ou FaltyDL, como é chamado, revisita em “You Stand Uncertain”, alguns estilos eletrônicos que estiveram em alta nos últimos anos (house, techno, trip hop, entre outros). A polifonia é interpretada em timbres vivos e refrescantes, com uma variação percussiva magnífica. Já Machine Drum, ou Travis Stewart, vai beber no juke (estilo eletrônico difundido em Chicago, que surgiu junto com o estilo de dança footwork) para produzir “Room(s)”. O álbum brinca com as possibilidades vocais, além de trazer uma multiplicidade de movimentos percussivos que variam nas frequências mais distintas possíveis. “Come1” e “She Died There” são bons exemplos, sendo que a segunda música é uma das mais interessantes do ano. Por fim, o misterioso Patten traz um emaranhado de sensações em “GLAQJO XAACSSO”, título que faz lembrar as maluquíces do lendário produtor Aphex Twin, que tem elementos em comum com a obra em questão. Patten sobrepõe timbres, varia frequências rítmicas, insere vocais picotados e nebulosos... Propõe uma gama de estilos musicais que elevam as sensações a um estado único: IDM, Shoegaze e Techno, todos em um mesmo pacote. Eu diria que esse indivíduo, que se mantém no anonimato, lançou o trabalho mais conciso da música eletrônica em 2011.

Machinedrum - She Died There by Mellow Yello


No hip hop, as obras mais produtivas saíram da seara experimental. A dupla Shabazz Palaces trouxe camadas de sintetizadores para realizar “Black Up”, um álbum que atravessa as principais influências do hip hop (soul, jazz, afro-music) sem soar semelhante à absolutamente nada gerado esse ano. Na outra esquina, o baterista de noise rock Zach Hill resolveu investir em um projeto de hip hop com outros rappers, um resultado mais acertivo que em seus trabalhos solos: Death Grips e seu “Exmilitary” contém a densidade de um álbum de Punk Rock, muitas vezes toma emprestado samples do gênero. É agressivo e anárquico, em certos momentos de maneira demasiada (como o discurso do psicopata Charlie Manson na faixa que abre o álbum “Beware”).


Retornando a terra firme

Sobra a esse capítulo sublinhar artistas e grupos que lançaram trabalhos de excelência, porém, que não estão listados entre os ditos melhores do ano.

Retomando meus elogios ao Brasil, os cariocas Domenico e Kassin, que até outro dia trabalhavam em conjunto com Moreno Veloso (nos projetos +2), lançaram belos trabalhos solos. O rapper Criolo, que surge em todas as listas das revistas conceituadas, produziu um álbum eclético que reflete as origens musicais da cidade de São Paulo, dialogando com Adoniran Barbosa (“Subirusdoistiozin”), além de fazer referências à cultura pop nostálgica, citando o super-herói japonês Lion Man, exibido na TV nos anos 90. O grupo paulista Bixiga 70, em seu afrobeat, não trouxe novidades, mas produziu um disco dançante, em harmonia com o estilo que está em alta nas festas do eixo Rio - São Paulo. Fábio Andrade, sob o pseudônimo de Driving Music, trouxe “Comic Sans”, cantado em inglês.  O músico explora o universo indie pop – excessivamente investido, mas tão pouco qualificado nos últimos tempos. Inclusive, “Comic Sans” merece mais elogios que os trabalhos recentes das suas principais influências: Wilco, Yo La Tengo, Sondre Lerche, e por aí vai...

Driving Music - Orange Traffic Cones by Driving Music

Ainda é possível citar uma leva de artistas e encontros míticos que funcionaram: “Watch the Throne “, de Jay-Z & Kanye West enriquecendo o hip hop; “Pinch & Shackleton”, dos próprios produtores de dubstep (subgênero da música eletrônica). Embora o Rock esteja há cada ano mais escasso, devido a falta de renovação, Girls buscou elementos em grupos de power pop como Teenage Fanclub e Big Star para gerar o homônimo álbum de amores impossíveis - é difícil encontrar algo tão romântico e sincero atualmente. Bon Iver, deixou de ser one man band, para gerar “Bon Iver”, rumando para outras direções e retirando em parte o estigma introspectivo do primeiro disco e EP. Em um Blues Rock direto e com tons de diversão, The Black Keys produziu, provavelmente, seu melhor álbum: “El Camino”. Não menos importante, muito pelo contrário, dinossauros da música também deram suas contribuições em 2011: “Bad as Me”, de Tom Waits; “Hot Sauce Committee Part Two”, dos Beastie Boys; “Ersatz G.B.”, do Mark E. Smith e seu The Fall.


Apêndice

Aos que não mereceram elogios, os tomates. Algumas derrapadas e decepções de gente grande: a "sempre" inovadora Björk, parece que não consegue lançar mais nada tão atraente desde "Medúlla" (2004): "Biophilia" é insosso, e se restringe a assimilar inventividades que já foram muito mais bonitas em tempos idos - vide "Homogenic" (1997) e "Vespertine" (2001). Embora eu não seja um entusiasta do som deles, o "Suck It and See", último disco do Arctic Monkeys só "ousa" mesmo no título do disco: é provavelmente o trabalho mais preguiçoso do grupo, que estourou na segunda metade da década passada. Mais um que parece ter desistido de ousar é o grande Chico Buarque, que repetiu a falta de brilhantismo do "Carioca" (2006)... ok, ainda sim "Chico" é mais competente.

Na vala musical, uma variedade incrível de artistas que um dia acertaram a mão - espera-se que ainda retornem ao mundo dos vivos. "I'm with you", do Red Hot Chili Peppers; "Mirror Traffic", de Stephen Malkmus; "O que Você Quer Saber de Verdade", de Marisa Monte; "Tomboy", de Panda Bear; "Angles", do The Strokes; "Mylo Xyloto", do Coldplay.

Assim, fecha-se um ano gratificante e poderoso para a música nacional, que parece estar se renovando. Após a leitura, penso que é desnecessário explicar que todas as palavras acima refletem a minha opinião - obviamente pode dar muito pano pra manga e discussão! Para não deixá-los sem as cerejas do bolo, segue o famoso “top 10” – algo totalmente divertido de ser feito, que de maneira alguma deve ser levado ao pé da letra.


Os dez melhores álbuns de 2011 -

01. “Passo Torto”, do Passo Torto

02. “King of Limbs”, do Radiohead

03. “GLAQJO XAACSSO”, de Patten

04. “Metá Metá”, do Metá Metá

05. “Room(s)”, de Machine Drum

06. “Black Up”, do Shabazz Palaces

07. “Recanto”, de Gal Costa

08. “Exmilitary”, do Death Grips

09. “50 Words for Snow”, de Kate Bush

10. “Um Labirinto em Cada Pé”, de Romulo Fróes

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Um clássico instantâneo, de 1894

Já que o assunto é espada, esse post é basicamente a dica de um livro, meio desconhecido, mas que teve bastante sucesso na época de seu lançamento: The Prisoner of Zenda. Escrito por Anthony Hope, em 1894, o livro já rendeu uma série de adaptações para o cinema e foi, em sua própria época, uma espécie de clássico instantâneo.

Mais novo do que Os Três Mosqueteiros, Zenda compartilha com o livro de Dumas um protagonista adepto das armas de um verdadeiro cavalheiro: a espada e o charme. Zenda, porém, acabou caindo no esquecimento do tempo. Para mim, uma verdadeira injustiça com um livro do qual gostei até mais do que de Os Três Mosqueteiros.

A história, na verdade, soa como velha conhecida: Rudolph, rei a ser coroado, da fictícia Ruritânia, é sequestrado na véspera do evento por seu irmão mais novo, Black Michael. Para a sorte de seus apoiadores, dois de seus mais próximos conselheiros encontram Rupert, bon vivant inglês que, pelos caminhos sinuosos da genética, é idêntico ao rei. Rupert assume o papel do rei voluntariamente, e de bom-grado, quando conhece a pretendente de Rudolph, a princesa Flavia. Rupert e Michael começam então um verdadeiro jogo de xadrez: um não pode revelar o que sabe sobre o outro sem também se denunciar.

The Prisoner of Zenda é um daqueles livros que pararam por acaso na minha mão e que ficaram no topo das minhas leituras favoritas de 2011. Quem se interessar, pode encontrá-lo em inglês, no site do projeto Gutenberg, de graça. Em português, infelizmente, o livro é praticamente impossível de ser encontrado. Com muita sorte, uma edição portuguesa pode ser encontrada em sebos, já que o texto não tem edição por aqui.

Para quem quiser, o filme de 1952, com Stewart Granger como Rupert/Rudolph e Deborah Kerr como Flavia, talvez seja o mais grandioso - mesmo que ignore pertinências histórias e até mesmo textuais, já que, por exemplo, Granger está longe de portar a cabelereira ruiva esperada do protagonista. Mesmo assim vale, nem que seja pela curiosidade.

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Fabricando Frases


Depois que o “marreta” Janu sugeriu, no último AlCast, a criação de um armazém de objetos com frases, não pude deixar de idealizar essa grande ideia.


Imagine só: uma lojinha pequena, com cara de boutique francesa, repleta de quinquilharias separadas não por cores, gênero ou ramo de utilidade - mas por frases.


Na entrada dessa lojinha, que se chamaria “No tempo da Delicadeza”, em homenagem a Chico Buarque – haveria uma placa, dessas que só são vistas quando já estamos do lado de dentro, prontos para ir embora: “Gentileza gera Gentileza”, nos traços em verde e amarelo característicos do Profeta. O gerente usaria, para combinar (secretamente), uma cueca com os dizeres: “Gente lesa gera gente lesa”.

Nos corredores da loja - no máximo três, apertados, mas razoavelmente iluminados - prateleiras com plaquinhas de madeira organizariam (mais ou menos) os setores:


Em um canto, uma placa diria “Subjetivação de Objetos - inclusive sorrisos”. O trecho do poema “Operação Alma”, de Mario Quintana, sugere uma prateleira sem lé com cré, mas com um pouco de tudo:


Lembrancinhas baratas, como chaveirinhos de plástico em forma de caveira trariam escrito “ser ou não ser, eis a questão”. Canecas de chopp, feitas de alumínio, ficariam ótimas nessa sessão, acompanhadas do famoso trecho de Chico Buarque, que diz “Você não gosta de mim, mas sua filha gosta”.


Ao lado das canecas, pacotes de camisinhas - com embalagem verde fluorescente - trariam a frase “Não adianta nem tentar me esquecer”, do Rei Roberto.


Ainda na área de souvenirs, uma para quebrar a cabeça, de Fernando Pessoa: “Querer não é poder. Quem pode, quis antes de poder só depois de poder. Quem quer nunca há-de poder, porque se perde em querer”. Essa ficaria ótima em imãs de geladeira.


Num outro canto dessa loja - não tão longe, pela própria limitação de espaço - uma placa florida advertiria o começo de uma nova prateleira: O segredo é não correr atrás das borboletas... É cuidar do jardim para que elas venham até você”. O trecho seria perfeito para um kit de jardinagem. Aliás, essas palavras são conhecidas popularmente como sendo de Mario Quintana mas, na verdade, tem autoria desconhecida.


Logo ao lado e um pouco sujos de poeira, vasinhos de cerâmica azul-claro com estrelas amarelas, lembrando as ilustrações do livro “O Pequeno Príncipe”, teriam a frase “ Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas.- cultivas”.

Nas prateleiras mais escondidas, diários trariam na capa “Já que se há de escrever, que pelo menos não se esmaguem com palavras as entrelinhas”, a verdade nua e crua de Clarice Lispector. Em um outro diário, daqueles com mini-cadeado e chaves douradas, a pergunta enigmática de João Camilo:Quem sabe o segredo mais secreto da existência de cada um?”

Num ponto mais afastado, uma nova prateleira. Dessa vez, com plaquinha de inscrições borradas. No centro, estaria um kit para vudu, com as palavras dramáticas de Caetano Veloso “Um amor assim delicado, você pega e despreza”.

Logo em frente, um folheto aparentemente sem utilidade diria “Oferece-se desespero em excelente estado”, de Kiki Dimoulá, mas sem telefone para contato.

Na prateleira de baixo, já bem próxima à porta de saída, uma placa alarmante: “Feia como um bode, teve um alegre enterro”. O trecho é do poema “Os desastres da boneca de Sofia”, de Adília Lopes. Os produtos dessa sessão seriam daqueles dietéticos, reservados aos neuróticos contadores de calorias. No rótulo, no entanto, um aviso de Clarice Lispector, em letras garrafais, lembrando até as advertências nos pacotes de cigarro: Até cortar os próprios defeitos pode ser perigoso. Nunca se sabe qual é o defeito que sustenta nosso edifício inteiro.”

Ao invés do tradicional “Volte Sempre” pregado à porta, essa lojinha teria uma placa diferente, em que novas frases pudessem ser escritas a cada dia. Para a estreia, escolheria uma frase bem curtinha, mas poderosa. “Para viajar, basta existir”, de Fernando Pessoa. Exatamente como esse post.


sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Um pouco dos nossos vizinhos

O ano está terminando e é nessas horas que você começa a rememorizar o que passou – chegando àquele balanço clássico: “esse foi um bom ano”, ou “que 2012 seja melhor”.  Isso me fez relembrar os primeiros dias de 2011: estive no norte da Argentina (Puerto Iguazu, que divide as cataratas com Foz do Iguaçu) e em Assunção (Paraguai). Em meio a esse trânsito, tive a minha primeira experiência efetiva com a música sulamericana.

Eu e meu tio viajávamos pelas fronteiras e conhecemos uma taxista argentina muy simpática. A conversa logo tomou o rumo usual da música.  Além de demonstrar seu gosto pelo que é produzido na nossa terra (que ia de Tom Jobim a Ivete Sangalo), o papo aguçou minha curiosidade a ponto de pedir algumas sugestões sobre músicas que ela gostava: a comunicativa senhora, sem delongas, lançou um som dançante no cd-player do Gol 1000: era cumbia, o som que predomina a parte do continente que fala espanhol. A partir daí, em meus passeios por Assunção, aproveitei para comprar uns cds de artistas regionais - que mais pareciam piratas, devido às  impressões toscas de suas capas. Mas o conteúdo valeu a pena.



Certamente esse texto não é um tratado da música sulamericana. ele não fará você sair sacando tudo dos "hermanos".  Ele vale, sim, como um incentivo: pararmos, algum tempo, de investir nas indústrias musicais que dominam o mercado, e “olharmos” para os lados.  Há muito o que conhecer e apreciar.

Sugiro começar como costumo fazer com estilos, ou qualquer movimento cultural, que eu tenho pouco conhecimento: vou à raíz, aos clássicos.  Por isso, acho válido comentar alguns ícones. Enquanto escrevo esse artigo, ouço Violeta Parra, por exemplo. Cantora chilena conhecida como a mais importante de seu país, conseguiu unir a canção folclórica a moldes populares. Suas composições são marcadas pelo engajamento político que embalou as revoluções latino-americanas. Duas de suas canções mais famosas, “Volver a los 17” e “Gracias a la Vida”, foram gravadas por Milton Nascimento (com Mercedes Sosa) e Elis Regina, respectivamente.

No continente, além da já comentada cumbia, há estilos muitos relevantes: o bullerengue, gênero difundido na Colômbia, que mistura danças somente entre mulheres e advindo das tradições africanas – sugiro as cantoras Petrona Martínez e Toto La Momposina. A tamborera, assim como o bullerengue, de origem venezuelana, mais um estilo de sonoridades percussivas que tem como berço a África - Gran Coquivacoa é o grupo de mais notoriedade. O vallenato é um som que poderia muito bem ser intitulado como o primo da música sertaneja: famoso por seus festivais anuais na Colômbia, é um estilo popular que tem o acordeon como principal instrumento.

Passando a uma seara mais conhecida, o tango. É fundamental comentar Astor Piazzolla. Entre todos os músicos sulamericanos, o argentino e seu bandoneón é o que mais me emociona. Piazzolla soube lidar com as tradições do tango, inovando-as rítmica e melodicamente, inventando o nuovotango. Quem tiver interesse no tango clássico, o documentário “Café dos Maestros” é uma boa sugestão: uma espécie de “Buena Vista Social Club” (filme do Wim Wenders sobre a velha guarda da música cubana) do gênero.


Charly García e seu bigode bicolor
Cumprindo um papel solene, é necessário abordar o estilo mais universal de todos. O Rock também tem sua devida importância. Dentre os vários músicos, o argentino Charly Garcia é o grande nome. Dono de uma personalidade intempestuosa - marcada pela depredação de diversos hoteis - sua carreira solo dura até hoje, embora Charly tenha liderado importantes grupos dos anos 70, como Sui Generis, La Máquina de Hacer Pájaros e a superbanda Serú Girán, conhecida como os “Beatles da Argentina” (embora eu acredite que a banda vá agradar àqueles que gostam de Queen).

Nas últimas décadas, grupos como Onda Vaga e Soda Stereo dominaram o mercado de rock alternativo da Argentina. A segunda, embora já tenha terminado, revelou ao mundo Gustavo Cerati, músico que transita no universo do rock eletrônico e produziu o eclético e recheado de particularidades “Bocanada” (álbum de 1999). Mas a miscelânea rock nos países sulamericanos, em geral, está atrelada a cumbia: Imperio Diablo (Argentina), Bareto (Peru) e Bomba Estéreo (Colombia) são só alguns exemplos de grupos.




Na música eletrônica ainda há aqueles que fundem estilos de maneira singular: Juana Molina – mais uma argentina, me parece o exemplo mais interessante. Entre as canções folclóricas do país e elementos sintéticos, ela cria uma sonoridade marcada por sobreposições, minimalismo e muita atmosfera. Na cumbia digital, Pedro Canale ou Chancha Vía Circuito (seu nome artístico) soa, de longe, como o mais curioso: o álbum Río Arriba (2010) flui entre uma gama de percussões artificiais e samples de artistas clássicos do continente, como o cantor José Larralde, que “empresta” a sua voz na faixa que abre o álbum (Quimey Neuquen - Chancha Vía Circuito Remix).

Para finalizar esse artigo, mais complexo de ser feito do que aparenta (minha vontade é de escrever um livro, criar um festival ou fazer um documentário sobre o assunto), comento o grupo Songoro Cosongo, um coletivo musical formado por artistas do Chile, Argentina, Colômbia, Venezuela e Brasil, que mora em Santa Teresa, bairro histórico do Rio de Janeiro. Além de encherem as casas de festas com seus shows, eles tem um bloco que movimenta milhares no carnaval carioca. Tocando o PsicoTropical Musik, gênero entitulado pelos próprios, creio que seja a síntese da difusão das sonoridade latinas no Brasil.


Bloco Carnavalesco Songoro Cosongo

Sinto-me obrigado a fazer uma discografia básica, para quem sentiu vontade de conhecer mais sons sulamericanos:

Violeta Parra – “Las últimas composiciones de Violeta Parra” (1966)
José Larralde – “Pa' que dentre” (1969)
Astor Piazolla – “Libertango” (1974)
Sui Generis – “Pequeñas anécdotas sobre las instituciones” (1974)
Serú Girán - “La grasa de las capitales” (1979)
León Giego – “4° LP” (1979)
Charly García – “Clics Modernos” (1983)
Charly García – “Piano Bar” (1984)
Astor Piazolla – “Tango: Zero Hour / Nuevo Tango: Hora Zero” (1986)
Soda Stereo – “Canción animal” (1990)
Totó la Momposina – “La candela viva” (1993)
Mercedes Sosa – “30 años” [Compilação] (1993)
Gustavo Cerati – “Bocanada” (1999)
Petrona Martínez – “Bonito que canta” (2002)
Jorge Drexler – “Eco” (2004)
Bareto – “Cumbia” (2008)
Onda Vaga – “Fuerte y caliente” (2008)
Juana Molina – “Un día” (2008)
Bomba Estéreo – “Estalla” (2008)
Chancha Vía Circuito – “Río Arriba” (2010)

domingo, 11 de dezembro de 2011

O Poder das Invocações Mágicas


Quando Príncipe Adam, do Reino de Etérnia, recebe a “Espada do Poder” da Feiticeira Teelana, ele ativa os poderes mágicos da arma com a frase: “Pelos poderes de Grayskull, eu tenho a força!”. O castelo, então, o transforma em He-Man - o homem mais poderoso do universo - como ele mesmo diz. Seu companheiro, um tigre medroso chamado Pacato, se assusta com a transformação de “príncipe bobo alegre” em “Conan misturado com o Príncipe Valente loiro” e, a princípio acidentalmente, é transformado em Gato Guerreiro.


Lembro-me bem de ver esse desenho nas manhãs antes de ir para o colégio e pensar a respeito da mudança brusca pela qual Adam passava. Voz, aparência e atitude se modificavam de tal forma que, frequentemente, eu esquecia que os dois eram a mesma pessoa. Adam é fraco e meio infantil, enquanto He-Man destrói um diamante com as mãos, se liberta de um sarcófago feito do metal mais resistente do Universo e sai na mão com ninguém menos que Kal-El, que teme pela própria vida, como mostra a capa de “Superman and the Masters of the Universe”.


“Dois alienígenas brigando!”, pensava.

Uma vez, quando precisei ficar quieto na cama, febril e com a garganta inflamada, fraco e rouco, temi por Adam. No dia em que perdesse a voz por conta de uma gripe ou coisa parecida, ele não proferiria suas palavras mágicas e ficaria rendido, se recuperando à base de líquidos e repouso, no corpo frágil de um príncipe. Aí, vinha o segundo medo – que Esqueleto ou Hordak descobrissem essa falha da qual eu havia me dado conta, e passassem a atacar o herói com baldes d’água gelada em dias de friagem ou roubassem todos os agasalhos de seu armário. Como isso nunca aconteceu, concluí que Duncan, o Mentor, devia ser uma excelente babá.

Pensava também a respeito de sua identidade mágica ser um segredo, somente revelado à Mentor, Feiticeira e Gorpo. Será que ninguém ouvia aquele moço de colete vinho e calça de lycra roxa gritando todos os dias a plenos pulmões que tinha a força? Certamente a vizinhança sabia, mas não comentava, já que ele ensinava ética e moral para as crianças de Etérnia.


Justamente por agir como um xerife de sua terra, que se contenta em frustrar os repetidos planos de seus algozes, mas é incapaz de encarcerá-los, que He-Man é peculiar. Ele sabe que está no topo da pirâmide por ser o homem mais poderoso do universo, possuir conhecimentos secretos e não precisar tirar uma única gota de sangue de alguém para se fazer entender. Mesmo em situações de extremo perigo, seus amigos aparecem para salvar o dia. Não dá para competir com um sujeito assim, já que Esqueleto e Hordak não têm ninguém, só capangas que obedecem por medo e respeito. Além disso, Adam sabe perdoar os malfeitores, ainda que estes nunca mudem suas maneiras.

Já outro desenho dos anos oitenta coloca uma equipe de fugitivos numa posição muito mais vulnerável. A bordo da nave-mãe, os sobreviventes dos ataques à Thundera pelos mutantes Plun-Darr, fogem para o Terceiro Mundo e vêem seu planeta ser completamente destruído. Eles escapam com a Espada Justiceira, uma arma mágica detentora do Olho de Thundera, artefato encrustado no cabo da lâmina capaz de fazer de Lion-O um guerreiro de verdade. Semelhante à Espada do Poder, a Espada Justiceira também precisa de um acompanhamento vocálico para atingir seu potencial máximo:

“Espada Justiceira, dê-me a visão além do alcance! Thunder. Thunder. ThunderCats. Rôôôu!!!”, meu irmão e eu gritavámos.

Mas por que só repetíamos as palavras de Lion-O e não as do Príncipe Adam, visto que gostávamos dos dois desenhos na mesma medida? Revendo os episódios há pouco tempo, lembrei de um fato importantíssimo. Lion-O foge da destruição de Thundera com seus amigos ainda criança, e a viagem para o Terceiro Mundo leva décadas. O herói adormece dentro de uma câmara criogênica, que falha em parar seu envelhecimento, ou seja, ao chegar ao destino final, Lion-O continua tendo a mente jovem, mas no corpo de um adulto.


Obviamente que as lições de moral de Adam também nos davam a impressão de se tratar de uma figura mais velha, sábia e provavelmente mais experiente, enquanto o herói dos ThunderCats “quebrava a cara” até sacar a Espada Justiceira, responsável por protegê-lo como uma fiel guardiã.

A figura de Mumm-Ra, o vilão de voz cavernosa e amedrontadora também sofria uma mutação a partir de uma longa invocação que o fazia ganhar corpo musculoso e um poder descomunal:

“Antigos espíritos do mal, transformem esta forma decadente em Mumm-Rá, o de vida eterna!” também repetíamos o que Mumm-Rá dizia, mas por nos vangloriarmos em termos decorado cada palavra dita, dia após dia.


Agora, paremos e pensemos – Esqueleto ameaça He-Man com trapassas pequenas e truques amadores. Até o Líder da Horda do Mal, Hordak, foi traído e preso numa outra dimensão, enquanto Mumm-Rá pede ajuda aos “antigos espíritos do mal”. Que tipo de vilão invoca fantasmas responsáveis por tudo aquilo o que é ruim? O esforço que Lion-O tem de fazer, sendo uma criança responsável em suplantar as ameaças constantes de um vilão ajudado por espíritos, é imensamente maior. Lembrando que Mumm-Rá é "o de vida eterna".


Quando meu irmão, eu e muitas outras crianças repetíamos as palavras de Lion-O, estávamos, de certo modo, ajundado-o. Não como um grito de guerra, mas como uma invocação capaz de alcançar a força de Mumm-Rá. Portanto, assistir aos episódios era a única forma de garantir que poderíamos ajudar Lion-O, Cheetara, Panthro, Tygra, WilyKit, WilyKat e Snarf a sobreviverem. Dramático? Talvez, mas nada nos deixava mais animados do que começar o dia sabendo que as forças do mal perderíam mais uma vez, com nossa ajuda.

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Frases de Cinema

Desde que o cinema dominou minha vida, algumas frases sempre martelam na minha cabeça. Fiz uma lista muito pessoal com algumas.

Impossível não começar com Casablanca, já que o clássico do diretor Michael Curtiz tem alguns bordões inesquecíveis. O primeiro, “Play it again, Sam”, é um mistério, já que essa frase nunca foi dita. A frase dita pelo personagem de Humphrey Bogart é: “ Play it, Sam. Play As time goes by”. É curioso que uma das falas mais românticas do cinema seja inexistente, e Casablanca ainda tem mais duas frases que não podemos deixar de lado:

Here's looking at you kid - Estou de olho em você, garota.

We will always have Paris - Nós sempre teremos Paris.

A seguir a minha seleção de frases, lemas e bordões marcantes do cinema:

1-"Hasta La Vista, baby." - Exterminador do Futuro 2

2-"I have always depended on the kindness of strangers." (Sempre contei com a bondade de estranhos) - Uma Rua Chamada Pecado

3-"Why so serious!?" (Por que tão sério!?) - O Cavaleiro das Trevas

4-"I'll be back." (Eu voltarei) - Exterminador do Futuro 2

5-"May the force be with you." (Que a força esteja com você) - Guerra nas Estrelas

6-"Here’s Johnny!" (Johnny chegou!) - O Iluminado

7-"Keep your friends close, but your enemies closer." ( Mantenha seus inimigos perto, mas seus inimigos ainda mais perto) - O Poderoso Chefão 2

8-"You talkin’ to me?"( Você está falando comigo?) - Taxi Diver

9-"It’s alive! It’s alive!" (Está vivo! Está vivo) - A Noiva de Frankenstein

10-"Welcome to Fight Club. The first rule of Fight Club is: you do not talk about Fight Club. The second rule of Fight Club is - you DO NOT talk about Fight Club!" (Bem-vindo ao clube da luta. Primeira regra do clube da luta - você não fala sobre o clube da luta. A segunda regra sobre o clube da luta é - você NÃO fala sobre o clube da luta!) - Clube da Luta

11-"I love the smell of napalm in the morning!" (Adoro o cheiro de napalm pela manhã) - Apocalypse Now

12-"Attica! Attica!" (idem) – Um Dia de Cão

13-"My precious!" (Meu tesouro!) – Senhor dos Anéis: As duas torres

14-"As God as my witness, I'll never be hungry again!" (Com Deus por testemunha, eu nunca mais passarei fome!) - ...E O Vento Levou

15-"A census taker once tried to test me. I ate his liver with some fava beans and a nice chianti." (Certa vez, um recenseador tentou me por à prova. Comi o fígado dele com fava e um bom vinho.) - O Silêncio dos Inocentes

16-"E.T. phone home." (E.T. telefone minha casa) -E.T.

17-"Fasten your seatbelts. It's going to be a bumpy night!" (Apertem seus cintos, vai ser uma noite turbulenta!) - A Malvada

18-"I am big. It's the pictures that got small." (Eu sou grande. Os filmes é que ficaram pequenos.) - Crepúsculo dos Deuses

19-"We didn't need dialogue. We had faces!" (Não precisávamos de diálogo. Tínhamos rostos!) - O Crepúsculo dos Deuses

20-"All right, Mr. De Mille. I'm ready for my closeup." (Tudo certo, Sr. DeMille, estou pronta para o close-up) - O Crepúsculo dos Deuses

21-"Well, nobody's perfect." (Bem, ninguém é perfeito) - Quanto Mais Quente Melhor

22-"Life moves pretty fast. If you don't stop and look around once in a while, you could miss it." (A vida passa muito rápido. Se você não parar e olhar em volta de vez em quando, você poderáperdê-la de vista) - Curtindo a Vida Adoidado

23-"If you build it, they will come." (Se você construir, eles virão) - Campo dos Sonhos

24-"I see dead people." (Eu vejo gente morta) - O Sexto Sentido

25-"I. Drink. Your. Milkshake! I drink it up!" ( Eu bebo seu milkshake! Eu bebo todo!) - Sangue Negro

26-"Rosebud." (idem) - Cidadão Kane

27-"There’s no place like home." (Não existe lugar como nosso lar) - O Mágico de Oz

28-"Go ahead, make my Day." (Vá em frente, faça meu dia.) - Impacto Fulminante

29-"All of a sudden she's playing Hamlet's mother." (De repente, ela está representando a mãe de Hamlet) - A Malvada

30-"Hello, Clarice!" (Olá Clarice) - O Silêncio dos Inocentes

31-"Adrian!" (idem) - Rocky, Um Lutador

32-"Yippee-ki-yay, motherfucker." (Yippee-ki-yay, filho da mãe.) - Duro de Matar

33-"Don't you fucking look at me!" (Não olhe pra mim, porra!) - Veludo Azul

34-"Bring me the head of Alfredo Garcia!" (Tragam-me a cabeça de Alfredo Garcia) - Tragam-me a Cabeça de Alfredo Garcia

35-"Uh-uh, I don't tip." (Eu não dou gorjetas) - Cães de Aluguel

36-"The way your head works is God's own private mystery." ( Do jeito que sua cabeça funciona, é um mistério divino) - Coração Selvagem

37-"A girl can't read that sort of thing without her lipstick." (Uma garota não pode ler uma coisa dessas sem seu batom) - Bonequinha de Luxo

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

AlCast 006: Frases, lemas e bordões.



Lunáticos, ouvintes e leitores, está no ar o sexto episódio do AlCast! Nesta semana, Janu, Juliana Giglio, Thiago Ortman e Mariana Negreiros falam sobre frases, lemas e bordões.

Lembrando que, caso você queira participar via Skype do próximo AlCast, tudo o que você precisa fazer é deixar seu contato nos comentários.

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Os ditos de um velho patife




Quando penso em frasistas na literatura de ficção científica sempre me vem à mente não um autor, mas um personagem: o longevo Lazurus Long, uma das grandes criações de Robert A. Heinlein, considerado um dos “três grandes” da FC (ao lado de Isaac Asimov e Arthur C. Clarke). Com suas aventuras e casos pitorescos, o personagem é o ponto alto e mais polêmico da série de contos e romances conhecida como “A História do Futuro”, que o autor publicou ao longo de toda a sua carreira literária e que analisa as possíveis alterações sociais que o progresso científico traz para a humanidade ao questionar valores tradicionais de nossa sociedade.

Lazarus Long é o mais usual dos muitos nomes assumidos por Woodrow Wilson Smith ao longo de seus mais de 2 mil anos de vida. Ele nasceu em 1912 e pertence à terceira geração de uma experiência de eugenia que visava o prolongamento da vida humana. Caso único entre as outras cobaias geradas pela experiência, sua vida foi estendida ainda mais por técnicas de rejuvenescimento descobertas séculos mais tarde.



Com espírito aventureiro e desbravador, Lazarus trabalhou em quase todas as profissões conhecidas, esteve presente em diversos momentos históricos e protagonizou episódios chaves do processo de colonização humana da galáxia. Seu biógrafo oficial não o define de forma lisonjeira (“Está claro que este homem é, pelos padrões habituais das sociedades civilizadas, um bárbaro e um patife”), mas sua personalidade cativante e libertária, e sua própria noção de ética, o tornam tão lendário quanto sua longa vida.

Lazarus faz sua estreia no livro “Os Filhos de Matusalém”, tem sua vida esmiuçada em “Amor Sem Limites” e é um personagem secundário em “The Number of the Beast” (“O Número do Monstro”, lançado apenas em Portugal), “O Gato que Atravessa Paredes” e “The Sail Beyond the Sunset”, o último livro de Heinlein publicado em vida. A fama do personagem é tão grande entre os fãs de FC que dois intervalos de “Amor Sem Limites”, reunindo citações, lições de vida, aforismos e algumas de suas considerações filosóficas, formaram uma obra à parte: “The Notebooks of Lazarus Long”, usado como livro de cabeceira por muita gente. As frases de Lazarus Long contidas nesta obra dizem muito de seu caráter e de seu sucesso.




“Se algo não puder ser expresso em número, não é ciência. É opinião”.

“De todos os crimes estranhos sobre os quais os seres humanos legislaram a partir do nada, a “blasfêmia” é o mais espantoso – com a “obscenidade” e a “exposição indecente” lutando pelos segundo e terceiros lugares”.

“Você pode ter paz. Ou ter liberdade. Não espere nunca ter ambas ao mesmo tempo”.

“Quando um lugar fica suficientemente cheio de gente para exigir carteiras de identidade, o colapso social não está longe. É hora de ir para outro lugar. A melhor coisa da viagem espacial é que ela torna possível ir para algum outro lugar”.

“A verdade de uma proposição nada tem a ver com sua credibilidade. E vice-versa”.

“A gente vive e aprende. Ou não vive muito”.

“Diga sempre que ela é linda, especialmente se ela não for”.

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Puro divertimento sem mea culpa


Quando saiu a notícia de que Tintin viraria um filme em motion capture, admito que fui uma das primeiras a ficar com os dois pés atrás. A série animada das aventuras de Tintin, exibida pela TVE, fez parte da minha infância e eu achava os traços simples incrivelmente expressivos. Então, falar de Tintin adaptado para uma tecnologia tão nova me deixou com receio do resultado. Era praticamente como se falassem que fariam uma versão live action da Turma da Mônica.

Porém, depois de ver o filme, me juntei aos críticos que viram na versão Jackson/Spielberg uma adaptação fiel ao material original, sem perder em originalidade nem modernidade. Mas saí do cinema pensando em um detalhe do filme que me chamou atenção.

Acho que ninguém vai negar que estamos praticamente sob a ditadura do politicamente correto. “Comam seus vegetais”, “façam seu dever de casa” e “não assistam a desenhos violentos” (como, por exemplo, Tom & Jerry, que envolve inúmeras situações de violência contra os animais).

Então, quando Tintin saca um revólver e não tem problema em usá-lo, confesso que me surpreendi. Esperei pacientemente que isso se tornasse um dilema moral para o herói, um perigo para seus companheiros ou que ele logo exprimisse como “detestava recorrer a armas”. Afinal, estamos falando de um filme infantil, certo? Mas a tal lição não veio e o Tintin em 3D, exatamente como o Tintin em 2D, pôde seguir seu caminho, depois de alguns tiros, sem dor na consciência.

Isso pode ser simples respeito pelo material original: na década de 30, quando as revistas foram inicialmente publicadas, o uso de armas de fogo não chegava sequer a ser um tema polêmico (aliás, elas eram parte importante da imagem do homem viril, extremamente popular desde o século XIX). É importante lembrar que, em “Tintin no Congo”, Hergé fala sem pudores sobre a “inferioridade da raça negra” (até o cachorro Milu é mais inteligente do que os nativos). Anos depois, quando a Europa saía do neocolonialismo e precisava lidar com seus próprios fantasmas, Hergé reviu seus conceitos e acrescentou um prefácio ao álbum, explicando a seus novos leitores o contexto de produção daquela história em particular.

Por outro lado, os tiros de Tintin se parecem muito com os de outro herói de Spielberg: Indiana Jones. Não só isso, o filme inteiro exala aquela aura dos filmes de aventura da década de 80: um certo desapego das preocupações quotidianas e de “questões políticas”, um exclusivo compromisso com o divertimento do público.

Qualquer que seja o motivo, estou aliviada: em uma época onde quase todo filme de ação parece vir com um tratado de mea culpa (sim, Avatar, estou olhando para você), é um refresco ir ao cinema e simplesmente me divertir.

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Pés descalços e chão gelado, depois de uma noite de sonhos.



A viagem de Ronaldo Fraga pelo Rio São Francisco, em 2008, foi uma proposta encantadora desde o início, quando o estilista embarcou por três meses em busca de referências para suas criações, até seu desdobramento final - a exposição Rio São Francisco - Navegado por Ronaldo Fraga, em exibição no Palácio Gustavo Capanema, no Centro do Rio de Janeiro.

Banhado por suas águas desde a infância, como ele expõe ao falar de sua peregrinação, era desejo encubado estar lá, de volta, para descobrir os mistérios do Velho Chico e fazer dele, assim, uma coleção de moda. O resultado foi glorioso e ainda deu direito ao belo bônus da exposição.




A mostra, inaugurada em 2010, passará por 12 diferentes cidades no Brasil. Começou em Belo Horizonte, onde nasceu Ronaldo, depois rumou para São Paulo e agora desemboca aqui, no Rio de Janeiro, onde fica até 10 de fevereiro. Depois, segue viagem mais uma vez.

Ao subir a escadaria que leva ao saguão da exposição, me deparei com um mar de coloridos peixinhos, feitos de garrafas PET, que se espalhavam pelo teto. Diante daquela cena, não pude deixar de perceber a ironia: os peixes me encaravam de cima e eu, esmagada por aquela massa, sentia-me pequena.

E assim o espectador pode ir navegando, guiado pelas diferentes texturas no chão, através dos 14 ambientes interligados que representam os 2873 km de extensão do rio.

Depois de passar pelo cardume no teto, entramos no corredor que percorre grande parte do salão. Na parede, um mapa de 12 m de comprimento situa o expectador no Velho Chico e ilustra as 15 principais cidades que tocam suas bordas. Ao passar pelos ambientes seguintes, cada qual com suas atrações, tive a sensação de estar me aprofundando, cada vez mais, por um caminho sem volta.

Nas paredes, imagens do fotógrafo Marcel Gautherot, cedidas pelo Instituto Moreira Salles, traziam para a realidade o que a imaginação vinha talhando, enquanto vozes de desconhecidos, saídas de televisores antigos em meio a malas de um couro rançoso, entoavam canções melancólicas.

No fim do corredor, Carcará, a canção de João do Vale, que lançou Maria Bethânia, se entrelaçava a melodias populares, anunciando o ponto alto da exposição. Pendendo do teto, vestidos bordados contavam a história do rio, de seu povo e da coleção de moda que foi, afinal, o objetivo da viagem orginal. É como se Ronaldo levasse, muito lentamente, o espectador a mergulhar em seu processo criativo para, depois, revelar a sua obra.


A viagem segue e, depois do respiro, somos convidados a colocar a cabeça dentro da água e nos deixar levar novamente. Passando por paredes ilustradas com lendas regionais, vestidos com a voz de Maria Bethânia, que declama o poema Águas e Mágoas do Rio São Francisco, de Drummond, chegamos à saleta Cidades Submersas. Ali, um vídeo narrado por Wagner Moura conta a história dos últimos minutos da cidade de Rodela, inundada para a construção da hidroelétrica de Itaparica, em 1988, enquanto pequenas casinhas cor de barro enfeitam o chão espelhado.

Ao sair da exposição, senti-me voltando, aos poucos, de um lugar que não conhecia. Como colocar os pés no chão gelado depois de uma longa noite de sonhos. Ronaldo faz isso com seus desfiles, sempre fez. E conseguiu mais uma vez, ao me levar em seu barco pelo rio fantasioso em que viveu durante algum tempo. Valeu a viagem.

terça-feira, 15 de novembro de 2011

Último show

Este blog estava preste a receber um texto sobre os artistas sulamericanos que tenho escutado nos últimos tempos. Mas a última terça-feira (dia 08) causou uma mudança. Acho que não só para mim, como para muitos que estiveram presentes no Circo Voador para assistir a segunda noite do “Eu Quero Festival”, realizado pelo grupo Queremos, com a apresentação de quatro grupos: Banda Baleia; Toro y Moi, Bombay Bicycle Club e Broken Social Scene.

Eu poderia falar sobre o show de cada um deles, mas não cheguei a tempo para assistir a Banda Baleia - grupo de um amigo que faz versões bacanas numa pegada jazz-pop. E pouco conhecia os dois grupos a seguir, embora Toro y Moi tenha me chamado atenção em alguns momentos. Não vou falar do festival em si, nem fazer uma avaliação crítica dos shows... então o que eu quero afinal? Quero revelar como foi a sensação de presenciar o fim de um projeto artístico: o último show do Broken Social Scene.





Antes de chegar ao mérito da questão, vale explicar o que é o Broken Social Scene, afinal, apesar de contar com fãs do Circo, o grupo não tem tanto renome por aqui. No início do século, houve um boom de grupos de indie rock e pós-rock no Canadá. Entre eles surgiu o BSS, um dos mais interessantes, tanto musical como conceitualmente. O coletivo é composto por uma reunião de músicos procedentes de diversas outras bandas canadenses – então, podemos entendê-lo como uma síntese do movimento musical do Canadá nos últimos anos. Também é importante comentar que foi o grupo que revelou a Feist, uma das cantoras mais bem sucedidas do país.





Agora, podemos voltar ao assunto que justifica o texto: apesar de já ter meu ingresso garantido com antecedência, só fiquei sabendo do “hiato por tempo indeterminado”, quando li “os motivos” para assistir o show no e-mail do Queremos. Mesmo com essa noção, nenhuma expectativa daria conta do que eu assisti: desde o primeiro momento, ouvia-se Kevin Drew, o fundador do grupo (junto com o baixista Brandon Canning), bradando que era “the last show”. E com o passar do espetáculo a informação ia dando lugar a um sentimento de melancolia. O grupo parecia criar mais e mais energia, não se sabe de onde. No meio do show, Brandon Canning comentou, em tom bem humorado, que eles tocariam por mais 1 hora e meia. A piada era pura verdade: foram 2 horas e meia de som.

No retorno para o primeiro bis da noite, Kevin Drew avisou que cantaria tal música por nós: assim começam os primeiros riffs de “Almost Crime”, uma das melhores canções da banda, pouco executada na turnê desse ano. Mas é o último show, vale tudo, e eles retornaram para mais dois bis. Antes do último, todos eles se agruparam na entrada do backstage, pareciam decidir sobre o ato de “voltar”. Nenhum componente parecia ter vontade de ver o show acabar.

O relógio se aproximava das 2 da madrugada de quarta-feira. Aos poucos o Circo foi esvaziando: os trabalhadores precisavam ir pra cama. Eu fiquei, subi para a arquibancada do segundo andar. Pela primeira vez, presenciei uma banda “vencendo” o público, e de modo algum aquilo foi ruim. Em meio a covers de Modest Mouse, Beastie Boys, uma versão a cappela de Kevin Drew da canção “I Still Haven't Found What I'm Looking For” do U2, o BSS parecia bem a vontade fazendo a vontade dos fãs, e a sua própria. Fechando o show com a agradável faixa instrumental “Pacific Theme”, os oito sairam apressadamente do palco. O ato me pareceu a maneira mais saudável para uma despedida...





No retorno para casa foi inevitável ficar refletindo a cerca daquele fim. Mesmo que seja um intervalo longo, e os membros do Broken Social Scene tenham outros grupos, fico pensando que encerrar a carreira artística, qualquer que seja ela deve ser um fardo. Como músicos solo, eles podem voltar quando quiser... Para cineastas, pintores, escritores: idem. Para uma banda, certamente não é igual, mesmo que ela retorne desfalcada... nunca mais soará igual - seja para os fãs, ou para o próprio conjunto. A saída súbita do palco, após um dos shows mais longos que assisti, tinha de ser consentida.



P.S. 1: Como carioca, considero obrigatório agradecer aos esforços do Queremos e a todos os nomes impressos no posters comemorativo do “Eu Quero Festival”, por trazer o grupo para o Rio. Afinal, se não fosse por eles, o Broken Social Scene finalizaria sua vida útil em uma rápida apresentação de 11 músicas no Festival Planeta Terra, em São Paulo.

P.S. 2: Caso meu texto não tenha atendido as expectativas de saber como realmente foi o show, segue uma nota do pitchfork com alguns vídeos e um artigo do Virgula contando a segunda noite do festival detalhadamente:

Nota da Pitchfork + vídeos

Broken Social Scene se despede dos palcos com show catártico no Rio de Janeiro

P.S. 3: Para você que ficou curioso com o texto sobre os “hermanos”, peço que aguarde até a minha próxima postagem. Fica aqui a promessa.

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

O estranho fascínio pelo macabro

Há pouco mais de uma semana John Malkovich interpretou, no Brasil, o assassino em série Johann Unterweger. Conhecido por estrangular prostitutas com seus sutiãs, Johann foi condenado e chegou a escrever “Purgatório, uma viagem ao cárcere” durante sua sentença, mas foi perdoado e libertado ao convencer a sociedade austríaca de sua reabilitação. Em um ano de liberdade, Unterweger repetiu seu modus operandi com mais seis moças, mas as autoridades locais não descobririam à tempo.

Ao pisar em Los Angeles, à pedido de uma revista austríaca, Johann passou a ser chamado de Jack, e começou a escrever sobre os crimes locais envolvendo prostitutas. “Jack” Unterweger fez mais três vítimas, foi enviado à sua terra natal e condenado, mas se suicidou assim que foi posto em confinamento.

Johann "Jack" Unterweger exibindo suas tatuagens

É exatamente esta pessoa que John Malkovich decide encarnar para desdobrar todo o emaranhado complexo de pensamentos e atitudes de um sujeito que ora parece nos atrair, ora nos repele. Se buscarmos em nossos quintais aquilo que torna o macabro tão fascinante, vamos encontrar duas histórias de extremo terror e inconvenientemente brasileiras.

A primeira conta a história de José Ramos e Catarina Palsen, conhecida como “Os Crimes da Rua Arvoredo”, ocorrido em 1864 na cidade de Porto Alegre, RS. José, inspetor da polícia de Santa Catarina, alega ter comprado o açougue de Karl Gottlieb Klaussner, seu velho amigo. O ex-proprietário, sumido há alguns meses, supostamente voltara à Saxônia. Ninguém imaginava que José, para defender sua mãe dos ataques do pai, o havia matado anos atrás e parecia ter certo jeito pra coisa.



Durante uma noite de gala no Theatro São Pedro, José, homem de hábitos refinados, sempre muito bem vestido, conhece Catarina Palsen, prostituta húngara de beleza indiscutível e os dois descem uma espiral de assassinatos em série que explica o destino de Karl Klaussner e a morte de dezenas de alemães, caixeiros viajantes e quem mais passasse pelo seu caminho. O que torna essa história tão absurda é o destino dos corpos – linguiças de carne humana vendidas na região. Caso você ainda queira saber mais, leia “O Maior Crime da Terra”, do historiador, jornalista e ensaísta Décio Freitas ou a matéria do jornalista Augusto Fischer chamada “O maníaco do açougue de Porto Alegre”.



A segunda história conta um lado esquecido do Rio de Janeiro antigo, talvez por ser tão maldito. O violento incêndio do casario da Travessa do Mercado, em 1790, fez do Arco do Telles o lar de figuras como a prostituta Bárbara. Portuguesa, a moça chegou ao Brasil acompanhada do esposo, mas logo que se apaixonou por outro homem, matou o primeiro.

Assim começam as lendas, mas nos registros do Intendente Geral da Polícia, desembargador Paulo Fernandes Vianna, a mulher, chamada de ‘Bárbara dos Prazeres’, ou somente de ‘Onça’, sofria dos sintomas violentos de um estágio avançado de sífilis e sua aparência havia se tornado terrível. Como forma de retardar este processo, a mulher roubava crianças da Roda dos Enjeitados da Santa Casa, as matava e supostamente se banhava em sangue, como maneira de tomar de volta sua beleza e juventude.

Arco do Telles, já durante o século XX.

domingo, 6 de novembro de 2011

O giallo e os slasher movies

Quando penso no cinema de gênero, logo me vem à cabeça os filmes de terror. Considerado inferior por alguns, o gênero é muito mais rico do que parece e pode ser dividido em vários sub-gêneros. Esse papo tem a ver com o meu morno entusiasmo com o Festival do Rio desse ano: o único sopro de emoção foi a retrospectiva do diretor italiano Dario Argento e seu foco no giallo, uma variação do terror no cinema.

Giallo significa amarelo em italiano e é um gênero tanto literário quanto cinematográfico, bem conhecido na Itália. O termo está relacionado a uma série de livros policiais de capa amarela, intitulados Il giallo mondadori, publicados pela editora Mondadori a partir de 1929. O nome veio da marca registrada da publicação - a capa amarela. No início, os livros eram apenas traduções de suspenses ingleses e americanos, mas seu sucesso chamou a atenção das outras editoras, que passaram a publicar histórias originais.


Em 1963, quando o diretor Mario Bava lançou o filme: A garota que sabia demais, o gênero começou a migrar para as telonas. No ano seguinte, Bava estreou Blood and black lace, filme em que surgem os emblemáticos elementos do giallo: o assassino com luva de couro e arma brilhante. Nos anos 70, o gênero teve seu auge na Itália e surgiram nomes como Lucio Fulci, Aldo Lado, Umberto Lenzi e o próprio Dario Argento.



Apesar da semelhança entre as histórias, enquadramentos diferentes, iluminação marcante e um colorido muito próprio são a sua característica mais forte, além das infalíveis cenas com cadáveres e nudez. O gênero me fascina com suas cores e sempre que vejo diretores modernos, como o chinês Wong Kar –Wai, penso no colorido giallo e no quanto ele é importante como referência de cinematografia.



O giallo fez a estréia de vários diretores italianos e pode ser considerado pai dos chamados “slasher movies”, outro sub-gênero do terror muito popular nos anos 80 e 90, que consiste, basicamente, em um assassino perseguindo um bando de pessoas e as matando uma a uma. Temos sempre uma visão muito gráfica dessas mortes, que costumam ser executadas com machados, facas, serras ou qualquer outra arma que possa render muito sangue, miolos e pedaços de gente pra todo lado. A maquiagem e os efeitos usados nessas cenas são chamados de gore, técnica que desperta tanto interesse que até conta com uma publicação especializada, a revista mensal americana “Fangoria”, bem difícil de encontrar por aqui, infelizmente.

Os protagonistas dos slasher movies viraram ícones, como Michael Myers de “Halloween” e Jason Vorhees da franquia “Sexta- feira 13”. Esses personagens, na sua maioria, são retratados como mentalmente desequilibrados, muitas vezes deformados fisicamente e traumatizados por algum acontecimento anterior, justificando assim a sua sede por violência. O curioso é que eles se tornam franquias intermináveis e as produções tendem a focar sempre na volta do assassino, transformando o vilão em uma espécie de anti- herói e gerando grande simpatia em um público fiel. Afinal, quem gosta de monstro, torce pela destruição de todos que cruzam o seu caminho, certo?