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quinta-feira, 10 de maio de 2012

A Vingança Mora Na Coréia

Quando se trata de vingança, todo mundo sabe da tal história do prato que se come frio e a maioria tem certeza absoluta que as mulheres são PhD no assunto, mas o que nem todo mundo sabe é que a vingança mora na Coréia - ao menos no cinema.

Quando a Ásia estava em crise financeira, os estúdios multinacionais que dominavam o cenário se mandaram. Foi nessa brecha que um grupo de novos diretores iniciou um processo de popularização do cinema do continente. O cinema sul-coreano teve sua retomada em meados de 1997.

Aclamado internacionalmente pela crítica, o cinema asiático é atualmente um dos que mais têm dado bons frutos, e a Coréia do Sul se destaca, sendo um dos únicos países no mundo onde as produções nacionais têm mais público do que as produções norte-americanas. Sua popularidade não se deve apenas às escolhas temáticas, mas também à forma e à estética das produções.

O cinema coreano tem algo que considero muito interessante: suas histórias juntam tudo que é elemento, drama, aventura, suspense e até mesmo uma dose de comédia, às vezes fica difícil definir um filme em apenas um gênero. Além dos roteiros excelentes e o cuidado com a fotografia, os diretores parecem não seguir as regras da indústria americana, cuidando de seus filmes de forma bastante autoral, e só temos a ganhar com tanta originalidade.

Em 2002, Park Chan-Wook lançou o primeiro filme da sua trilogia da vingança Sympathy for Mr. Vengeance, mas todos começaram a prestar atenção no diretor em 2003, com o segundo filme: Oldboy.




Devido ao seu sucesso na Europa, Oldboy foi o primeiro da trilogia a ser exibido no Brasil e se tornou cult instantaneamente. A partir daí, estava estabelecida a relação do grande público com o cinema coreano. O terceiro filme da trilogia - Lady Vingança - consolidaria a popularidade do diretor e abriria portas para outros cineastas daquele país.

Recorrente na Coréia, outros diretores se dedicaram ao tema da vingança: Kim Jee- Woon dirigiu A Bitter Sweetlife (aqui, lançado em DVD como Gosto de Vingança) e mais recentemente o ótimo I Saw the Devil (infelizmente ainda não lançado no Brasil). Hong Jin-na lançou há pouco Yellow Sea.



A vingança tem gerado boas histórias e é muito abordada no cinema mundial. Diretores como Sérgio Leone e Sam Peckinpah dirigiram tratados sobre o assunto e até François Truffaut, conhecido por sua delicadeza, fez o seu: A Noiva Estava de Preto.


Foi graças a Truffaut que Tarantino nos presenteou com um dos mais icônicos personagens do cinema atual: A Noiva, interpretada por Uma Thurman em Kill Bill, Vol.1 e 2. Se Jeanne Moreau não tivesse interpretado Julie Kohler, a noiva sedenta por vingança no filme de Truffaut (veja a foto dela na home do site Aventura de Ler), provavelmente a personagem de Tarantino não existiria. Muito antes, Julie Kohler abandonou sua cidade para se vingar dos cinco homens que julgou culpados pela morte de seu noivo no dia de seu casamento.

Beatrix Kiddo, A Noiva de Tarantino, vai até o oriente para se preparar para a sua esperada vingança, mais uma vez comprovando que quando são brutalizadas e ultrajadas, as mulheres andam de mãos dadas com o tema e dão sempre grandes protagonistas. A história de Tarantino não economiza nas referências ao cinema western e asiático e, fã assumido do cinema do oriente, faz a sua homenagem quadro a quadro. Seja na escolha de atores asiáticos, como Gordon Liu, que faz o papel de Pai Mei, e de Sonny Chiba, como Hatori Hanzo, ou da atriz japonesa Chiaki Kuriyama, que usa a mesma roupa do filme em que ficou conhecida, Battle Royale (outro ícone).

A sequência de luta da Noiva contra os crazy 88`s, em contraluz, pode muito bem ser entendida como uma homenagem a Samurai Fiction. Tarantino usa as referências, mas sempre faz um filme seu, nunca é um plágio. Ele entende o cinema de gênero e dá aula no assunto.


Se a história de Tarantino confirma as duas máximas famosas (mulheres e comida fria), na Coréia a vingança é dos homens e eles preferem comer o prato quente e com muito sangue. Basta lembrar de Oldboy: o personagem Oh Dae-su é seqüestrado e confinado numa prisão domiciliar por 15 anos, aparentemente sem explicação alguma. Depois de liberto, ele vai dedicar seus dias a descobrir quem foi o responsável e por qual motivo. O personagem terá sua vingança a qualquer preço, mesmo que tenha que passar por cima de todos e arrancar alguns dentes de seus oponentes.

sábado, 21 de abril de 2012

Os homens de Bronze de Alberto Giacometti



Aproveitei o feriado da Páscoa para quatro dias de Arte, Lollapalooza, boa comida e táxis para lá de inflacionados na cidade de São Paulo. O passeio não saiu nada barato (R$150 só de ingresso para assistir ao MGMT!), mas não tenho dúvidas de que tenha valido cada centavo: escutar a banda tocar “Electric Feel”, cercada por uma verdadeira tempestade de raios, foi o segundo ponto mais alto do feriadão.
O primeiro foi ver de perto o trabalho de Alberto Giacometti, artista suíço que viveu entre 1901 e 1966, que está em exposição na Pinacoteca até o dia 17 de junho. Dentre as inúmeras obras produzidas pelo artista - esculturas, gravuras, desenhos e pinturas - acredito que as mais surpreendentes sejam suas famosas figuras longelíneas, feitas em bronze ou gesso. Mais surpreendentes ainda são os diferentes tamanhos dessas criações: enquanto algumas foram produzidas em tamanho real, outras são tão pequenas como um dedão do pé. Outro aspecto interessante é o caráter “2D” dessas estátuas que, quando vistas de lado, são pouco volumosas, o que nos faz lembrar uma pintura, feita para ser apreciada de frente.

Foto da exposição, na Pinacoteca de São Paulo
Giacometti em seu estúdio
As intrigantes estátuas de Giacometti tem tudo a ver com as questões existencialistas que assolavam algumas das cabeças pensantes da época, especialmente as do amigo e filósofo Jean-Paul Sartre.  Segundo o próprio Sartre, Giacometti “foi o primeiro a esculpir o homem tal qual como o vemos, isto é, à distância. Cria sua figura a dez passos, a vinte passos, e o que quer que você faça, ela ali permanece”. Os rostos de suas esculturas também são bem característicos, como define a curadora da mostra, Véronique Wiesinger. “Ele junta todas as caras que vê em uma só. São visões construídas a partir de vários momentos, de rostos que desfilam pela memória dele.”
Não sei se foram os rostos impessoais ou mesmo a sensação de distanciamento causada por suas silhuetas que, como definiu Sartre, parecem mesmo formas difusas ao longe. Só sei que me senti, perante aquela multidão metálica, estranhamente só. 
Lembrei imediatamente da peça Huis Clos, ou “Entre Quatro Paredes”, escrita por Sartre em 1944. Na história, o filósofo discute as inquietudes da vida após a morte a partir de três personagens que se veem obrigados a conviver por toda a eternidade. Garcin, Estelle e Inês estão condenados ao inferno que, na peça, nada mais é do que uma saleta super bem decorada, com direito a mordomo e poltronas macias, em que o verdadeiro desafio reside na própria convivência entre os três. “O inferno são os outros”, escreveu Sartre. Ao longo da história, percebemos que o julgamento que uns fazem dos outros é o que os obriga a olhar dentro de si e enxergar aquilo que não queriam. E aí está o verdadeiro diabinho.
Ao pensar sobre as questões levantadas pela obra desses artistas, fiquei imaginando a estranha amizade que unia essas duas almas. Não seria o distanciamento das figuras de Giacometti a fuga perfeita para o inferno populoso de Sartre? É curioso como duas cabeças tão próximas podiam completar seus pensamentos através de obras tão distintas.
Jean-Paul Sartre
Alberto Giacometti, por Cartier-Bresson
Para os residentes de Sampa ou para os que estão de passagem, a exposição vale a visita: não é todo dia que temos a oportunidade de testemunhar com os olhos, ao vivo e em bronze, um diálogo entre gênios tão silencioso.

quarta-feira, 4 de abril de 2012

AlCast 009: Humor



Lunáticos, ouvintes e leitores, está no ar mais um episódio do AlCast! Nesta semana, Janu, Raphaela Leite, Tati Laai e Victor Mattina conversam sobre as recentes perdas no humor brasileiro - Chico Anysio e Millôr Fernandes, além de lembrar de Nelson Rodrigues e Bernard Shaw.

segunda-feira, 2 de abril de 2012

A Liga do humor


Quando o assunto é história de super-herói com humor muita gente se lembra do clássico seriado do Batman para a TV nos anos 60. Recentemente, o tema ficou em evidência com as versões para a tela grande de Super-herói: o filme, de Hancock e do Homem de Ferro, mas a junção não é tão rara quanto parece. Nos primórdios do gênero, nos anos 40, já existiam vários super-heróis cômicos – como a Tornado Vermelho e Johnny Thunder – e muitos personagens sérios e tradicionais possuíam parceiros (sidekicks) engraçados – como o Lanterna Verde e o Homem Borracha. Apesar de não ser sucesso astronômico de vendas, o nicho manteve, nas décadas seguintes, um ou outro representante. Mas houve um momento em que um título nesse estilo teve grande destaque.

O ano de 1987 estava começando quando uma grande surpresa atingiu os leitores dos quadrinhos americanos. A revista da Liga da Justiça da América, a mais tradicional e representativa equipe de super-heróis da DC Comics (a casa do Superman e do Batman), havia sido relançada, seguindo um estilo que em nada tinha com o que os leitores associavam às histórias do grupo.

A versão anterior da publicação havia sido cancelada devido ao mau resultado de vendas. Segundo alguns, por causa da baixa qualidade dos roteiros, de acordo com outros, devido a um elenco de personagens dispensáveis e sem carisma. Autores e editores tinham dificuldades para conseguir participação na equipe de personagens com títulos próprios da editora. Era o caso de Superman, Batman, Mulher-Maravilha, Flash, Lanterna Verde... Os autores dos títulos solos desses personagens alegavam que a participação na equipe poderia bagunçar a cronologia que construíam para eles. Para preencher vagas em aberto, os autores criaram personagens novos, o que acabou diminuindo a importância da equipe. Se heróis que acabavam de surgir podiam integrar a Liga da Justiça, ela deixava de ser formada pela elite da editora, como era sua proposta original. A revista perdeu boa parte do charme e ficou desgastada.

Os roteiristas que tiveram a incumbência de revitalizar o título – Keith Giffen e J.M. deMatteis – continuavam com o mesmo problema. Dos personagens “medalhões” da editora, apenas Batman e Caçador de Marte (o único remanescente da versão anterior da equipe) estavam liberados para uso. Giffen, o principal responsável pelos argumentos, surgiu com uma proposta inusitada para compensar a falta de personagens clássicos na equipe: a Liga iria rir de si mesma e partiria para um humor escrachado, que lidaria com as tensões entre os participantes e com a falta de credibilidade da equipe, além do oportunismo e da surpreendente conduta questionável de alguns deles. Surgia assim a nova Liga da Justiça que, por deixar de exaltar o american way of life e poder agir pelo mundo todo com o aval das Nações Unidas, se transformou na Liga da Justiça Internacional, com direito a “embaixadas” em diversos países. Para isso, a equipe contou com membros de outras nações, como o russo Soviete Supremo nº 7, a norueguesa Gelo e a brasileira Fogo.

Além desses, o grupo contava com membros antigos de segundo escalão (Canário Negro e Senhor Milagre), recém lançados ou recém incorporados ao cast da editora (Gladiador Dourado e Besouro Azul), além de personagens com o quais a editora não sabia o que fazer (Capitão Marvel e Sr. Milagre) ou que não importavam para ninguém (Doutora Luz e Oberon). Era uma salada de heróis com mais chance de fracassar do que a versão anterior do grupo. Mas, ao assumir a falta de pudor em brincar com as fórmulas do gênero, a revista tornou-se um grande sarro, jogando por terra diversos clichês dos super-herois. O resultado ficava ainda mais engraçado por ser editado pela mais conservadora das grandes editoras americanas.

O humor tornava os personagens mais humanos e próximos do público e as situações lembravam seriados como Senfield ou Friends: Caçador de Marte era viciado em biscoitos de chocolate; Batman era mais ranzinza e fascista do que em sua própria revista; Fogo, uma heroína fracassada, vê na Liga a possibilidade de voltar a ser uma celebridade; um Capitão Marvel poderoso e com grande sabedoria tinha a personalidade de uma criança de 12 anos... Mas o grande destaque estava nos dois Lanternas Verdes da equipe: Guy Gardner, um machista prepotente, com um visual que remete ao Moe dos Três Patetas, que tenta resolver tudo na briga e provar que é o maioral, e G’nort, um alienígena idiota e pueril com feições caninas, que se tornou herói porque seu tio era influente e mexeu seus pauzinhos.

Não podemos esquecer dos vilões que eles enfrentavam, como Lorde Mangá-Khan, que falava e agia como um afetado vilão do cinema dos anos 30, mas era apenas um comerciante; o Senhor Nebulosa, Decorador de Mundos, e seu assistente, o Esquiador Escarlate (paródias dos personagens da editora Marvel – Galactus, Devorador de Mundos, e seu arauto, o Surfista Prateado). E havia os impagáveis membros da patética e hilária Liga da Injustiça, que, de tão fracassados na carreira de supervilões, tentaram se regenerar formando a filial da Liga da Justiça na Antártica, um dos melhores episódios de toda a série.

Apesar da qualidade dos argumentos de Giffen e dos hilários diálogos desenvolvidos por DeMatteis, vale destacar outro elemento essencial para o sucesso da revista: os desenhos de Kevin Maguire. Suas expressões faciais exageradas, absolutamente convincentes para demonstrar qualquer tipo de emoção, se encaixavam como uma luva nos roteiros em que havia pouca ação típica das histórias de super-herois. A capa para a 1ª edição da revista, reunido todos os integrantes da equipe se tornou uma das mais imitadas dos quadrinhos.

Enquanto todas as outras revistas em quadrinhos da DC Comics eram densas e dramáticas, tentando fazer com que os heróis fossem levados a sério, a Liga da Justiça seguiu o caminho inverso e se tornou um dos grandes sucessos da editora em sua época. Tanto sucesso, que a equipe cresceu e se dividiu em dois grupos: um sediado na América e outro na Europa. Alterou para sempre o status de vários personagens que passaram pela revista, tornando alguns, como Guy Gardner, Lobo e Besouro Azul, preferidos dos fãs.

Com o passar do tempo, a fórmula se desgastou. A fase terminou em 1992, com seus autores partindo para novos trabalhos, e a Liga voltou a ter seus velhos problemas de vendas e a mendigar a participação de personagens importantes na equipe. O velho trio de autores se reuniu outras vezes, trazendo de volta aqueles personagens e seu tom humorístico em duas minisséries, para o deleite dos saudosistas. Fizeram também uma minissérie no mesmo tom com os Defensores, uma equipe de heróis da editora Marvel, maior concorrente da DC Comics, provando que seu estilo ainda tinha grande apelo com o público leitor.

Uma reformulação está dando cara nova aos personagens do Universo DC e a editora chamou Giffen, DeMatteis e Maguire para criar uma derradeira aventura com a equipe que os consagrou, com o mesmo humor que marcou a passagem deles pela revista da Liga da Justiça. Vinte e cinco anos se passaram desde que eles surgiram para injetar um pouco de graça em um mercado que estava se levando a sério demais, mexendo com a indústria e trazendo novos leitores para os quadrinhos. Outros títulos ocuparam o nicho em seu lugar, como Deadpool e Plastic Man (este último, lamentavelmente, ainda inédito no Brasil), mas, para muitos, a Liga da Justiça em sua fase cômica continua como o melhor representante de seu gênero.

segunda-feira, 26 de março de 2012

Jogos Vorazes

No último final de semana, tive a oportunidade de ver o lançamento mais recente da onda dos livros de young adult adaptados para o cinema: Jogos Vorazes. Li o livro no meio do ano passado e, apesar de ter gostado bastante, não pude continuar com as duas seqüências. Mesmo assim, estava animada para ver o filme e não me arrependi. Grande parte do meu não-arrependimento tem nome e sobre nome: Jennifer Lawrence.

Depois de uma enxurada de protagonistas sem-sal ou simplesmente irritantes na literatura jovem, foi um alívio encontrar Katniss Everdeen que, apesar de todos os seus defeitos, faz com que o leitor seja mais um torcedor do que mero expectador dos tais Jogos. No livro, isso é bem-feito. No filme, achei melhor ainda.

Tudo porque a Katniss de Jennifer Lawrence é ainda mais cativante. A atriz está bem diferente da Raven de X-Men Primeira Classe, tanto no visual quanto no comportamento. Não que duvidasse do talento dela, mas depois de vê-la como a mocinha serelepe que se torna a mão-direita de Magneto, queria ver como ela encararia uma personagem mais densa em um ambiente tão diferente.

Para mim, ela é o grande trunfo do filme de Gary Ross, que poderia ter segurado um pouquinho a câmera para que pudéssemos ver melhor, por exemplo, as cenas de ação. Nada de spoilers, mas a luta final merecia uma fotografia melhor, um ângulo mais aberto, um tripé que fosse, para que pudessémos nos sentir realmente ansiosos para saber o que aconteceria. Não sou a primeira a falar sobre isso, provavelmente não serei a última, mas acho que vale a nota.

Mas Jennifer Lawrence consegue transitar tão bem entre a insegurança e a determinação, a timidez e a bravura, que o problema da câmera parece secundário. Afinal, a história é sobre ela e, mesmo que o universo em que Panem existe pareça às vezes um pouco incongruente, Katniss é quase como um porto-seguro: se nada faz sentido, pelo menos a história dessa garota que entra em um torneio mortal para salvar a irmã é bastante concreta.

Josh Hutcherson também não fica muito atrás, como Peeta Melark. Considerando a participação do personagem no filme, ele fez um bom trabalho sendo marcante. Sobre Liam Hemsworth como Gale, é quase covardia, já que o personagem mal ganha cinco minutos em cena (e, em boa parte deles, fica calado). A história é mesmo de Katniss, e o filme, de Lawrence.

Imagino os executivos de Hollywood, em seus escritórios, calculando cada bilhete vendido, e projetando já as expectativas para novembro de 2013 - quando a continuação, baseada em Em chamas está programada para sair.

Para eles e para os fãs, pelo menos por enquanto, a sorte está a favor.

quinta-feira, 22 de março de 2012

A alma de um personagem e o seu figurino


Ao observar o figurino de algumas séries de televisão, não consigo deixar de imaginar como deve ser divertido elaborar aquele universo. Afinal, não é fácil captar a “alma” de cada personagem e traduzi-la em peças de roupa. Para entender a responsabilidade que a tarefa pode trazer, basta perceber a influência da TV nas roupas e trejeitos das pessoas nas ruas: inúmeros estilistas já foram consagradaos a partir de seriados de TV (como Manolo Blahnik, em Sex and the City) e, todos os anos, mais e mais modismos são lançados por conta desses programas. Aliás, acho que o faturamento do Saara, zona central de compras no Rio, não seria o mesmo sem novelas como “O Clone” ou “Caminho das Índias”.

Em algumas produções, no entanto, o figurino pode alcançar um outro patamar: mais do que suporte para reforçar a personalidade, ele pode ser tão importante como o personagem principal em si. Foi o que aconteceu no seriado “Sex and The City”, onde os figurinos criados por Patricia Field se tornaram tão conhecidos como as quatro meninas da série. O fenômeno pode ser explicado pela dedicação da figurinista em transformar o seriado em uma referência do que havia de mais atual na moda nova iorquina. Suas produções misturavam o que havia de mais chique com peças de brechó ou lojas de departamento, consolidando o estilo Hi-Low . Outro ponto importante deste trabalho foi a minuciosa preocupação com tudo que fosse ao ar: consta que, para cada cena, dez opções de figurino eram selecionadas para se chegar ao resultado final.

Se a moda revelava toda a sua força nos figurinos do seriado moderninho, o mesmo pode ser visto na produção kitsch A Grande Família. O remake da Globo, que atualmente está em seu décimo-primeiro ano de vida, tem suas origens na série homônima, que foi ao ar na década de 70. Se em Sex And The City o glamour e a preocupação com a atualidade eram determinantes, aqui, na casinha suburbana de Seu Lineu e Dona Nenê, a cafonice e as referências retrô imperam. Mas para quem pensa que a ausência de refinamento é puro desleixo, está muito enganado. Cada detalhe visual é meticulosamente estudado para a caracterização dos personagens que, além de lançar modinha, tem na identificação com o público o seu foco. Nas palavras de Marieta Severo, "o brasileiro gosta de se ver refletido nessa família que supera os problemas do cotidiano com bom humor, afeto, solidariedade e compreensão". Para isso, o figurinista Cao Albuquerque abusa dos estereótipos das ruas e mistura referências de diferentes décadas na composição de seus personagens: as extravagantes camisas do Agostinho, por exemplo, são inspiradas nos anos 70 e os decotes comportadinhos de Dona Nenê, na inocência dos anos 50.

Mas e aqueles programas que, aparentemente, possuem personagens pouco interessados no vestir? O seriado nerd The Big Bang Theory traz montes desses indivíduos que, ao contrário das meninas populares de Nova York, não recebem tantos convites para eventos sociais. Mas quem acha que o trabalho do figurinista aqui é menos importante, se engana novamente. Por trás das inocentes camisetas de Sheldon Cooper ou as insossas pregas das saias de sua namorada Amy Fowler, encontra-se uma figurinista preocupada em aparentar, cena a cena, o caráter alienado ou, como seria o caso do judeu Howard Wolowitz , a total falta de senso estético em suas combinações. Howard, ao contrário dos outros, tem motivo para se preocupar com sua aparência. Em sua caracterização, a figurinista Mary T. Quigley abusa das calças justas e dos mais variados modelos de cinto para atrair a atenção para a região pélvica. “Para alguém que é tão sexual, ele precisa realçar as partes importantes. Os cintos estão sempre atraindo a atenção para a virilha, o lugar onde realmente está o coração dele”, diz o ator Simon Helberg, o Howard da vida real.

Depois de avaliar alguns aspectos desses figurinos, não há dúvidas do quão importante eles são para a construção de cada personagem citado. Assim como os atores, diretores e roteiristas, os figurinistas também são responsáveis pelo sucesso desses personagens que, a despeito do caráter pouco sociável que alguns possam aparentar em cena, ganham o respeito e a popularidade dos espectadores que os prestigiam.

quinta-feira, 8 de março de 2012

Shameless

Perder noites de sono por conta de algum filme ou série é coisa muito comum na minha vida e a atual tara é o seriado americano Shameless.


A série conta a história de Frank Gallagher, um alcoólatra narcisista que vive caído pelas ruas enquanto seus seis filhos têm que se virar, seja contando com a bondade dos vizinhos ou fazendo bicos e até mesmo roubando. A esposa do bebum abandonou a família há algum tempo e a filha mais velha, Fiona, se sente responsável por todos e toma as rédeas da situação, ou sendo mais precisa, toma conta de seus cinco irmãos: Liam, Debbie, Carl, Lip e Ian.


Olhando essa pequena sinopse tudo parece super dramático, o que não deixa de ser, mas Paul Abbot, o criador da série, consegue com maestria fazer uma dramédia da melhor qualidade.

Shameles é versão de uma premiada série inglesa exibida no Channel 4. Ao descobrir esse pequeno detalhe, tudo fez sentido - o cinismo que permeia série, a imoralidade, ou melhor, a amoralidade dos personagens e, lógico, o humor negro. Os Gallagher, como são chamados por todos, vivem no melhor estilo “já que só temos limão, vamos fazer uma limonada”.

Não posso deixa de mencionar a brilhante escolha de William H. Macy para viver o papel de Frank e de Emmy Rossum, no seu melhor papel até hoje, vivendo Fiona. O elenco mirim não fica atrás e ainda somos presenteados com a participação de Joan Cusack. Dormir agora, só quando os episódios esgotarem.