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sexta-feira, 21 de setembro de 2012

Reboots, remakes e que tais: cansei.


por Tatiana Laai

O infográfico abaixo (traduzido por Aventura de Ler) tem aparecido com bastante frequência nas timelines das redes sociais.  Ele nos revela que atualmente o cinema americano é mais do mesmo. O fato é que cada vez é maior o número de filmes americanos lançados como reboots (reinícios) ou continuações de franquias já bem conhecidas. E temos ainda os sequels (continuações), os remakes (refilmagens), os prequels (“prequência”, na verdade um prólogo ou início de uma história, mas com uma passagem anterior a do original). 

Clique na imagem para visualizá-la em tamanho grande.

Falta criatividade? É preguiça? É reciclagem?  Temos também as adaptações de histórias em quadrinhos e vídeo games pipocando por aí, e quase não temos produções originais. Por que? Hollywood ficou sem ideias? Os roteiristas não são talentosos? Ou o público não gosta de histórias novas? O que diabos está acontecendo com Hollywood? Se paro pra pensar no assunto encontro muito mais perguntas do que respostas. 

Existem diversas e distintas maneiras de fazer remakes, que são, basicamente, refilmar, refazer ou copiar um filme. Podem ser feitos a partir de filmes antigos, que tiveram mais ou menos sucesso, tentando representá-los na atualidade, e podem ser novas perspectivas sobre esses mesmos filmes. Mais do que uma cópia, pode ser um exercício de reinterpretação das ideias com um cunho marcadamente pessoal do realizador e que difere do original. Pode até ser um filme cuja ideia tivesse sido muito boa, mas que falhou na execução, e alguém quer agora dar nova roupagem.  Ou, pura e simplesmente, pode ser uma maneira de pegar num sucesso não americano e refazê-lo em inglês, para transformá-lo num sucesso universal, e que seja vendável principalmente nos EUA.

É esse tipo de remake, cada vez mais comum, o que mais me irrita, confesso. Parece falta de respeito pelo original e por quem trabalhou nele. Peguemos o filme Deixa Ela Entrar (“Låt den rätte komma in”/”Let The Right One In”), um dos melhores de 2008.  O filme sueco conquistou a crítica e venceu vários prêmios ao redor do mundo. Em 2010, estreou o remake falado em inglês.  Claro, porque reza a lenda que o público americano odeia ler legendas e gosta menos ainda de ouvir outros  idiomas.  Acho essa desculpa meio esfarrapada. Outro tipo é o do remake de filmes “antigos”. A desculpa aqui é que eles são uma maneira de apresentar filmes que foram feitos em outra época pra uma geração mais nova. Também acho essa desculpa furada. As novas gerações na podem ver o filme original? 


Não estou aqui para julgar se reboots, remakes e que tais são bons ou ruins. Na verdade, creio que vários deles têm potencial enorme para se tornarem filmes de qualidade, mas este não é o ponto. O fato é há quem arrisque nas ideias novas ou em adaptações de livros desconhecidos, seja no cinema espanhol, na Suécia, na Coreia ou noutro país qualquer. E Hollywood está com escassez de obras grandes e novas, talvez porque os estúdios não queiram investir muito dinheiro em projetos sem potencial comprovado, ou porque apenas queiram tirar mais dinheiro dos já conhecidos.  Possivelmente pelos dois motivos. Talvez o vilão nessa história seja o próprio caráter cada vez mais industrial do cinema, que visa o lucro acima de tudo, independente do país.  O que nos leva às infinitas continuações.

Você pode perceber facilmente que alguns filmes são tão legais que não precisam de continuações. Pegue Matrix, por exemplo. Ele precisava de duas continuações? Acho que não. Não vou julgar aqui a qualidade das continuações, mas ele não precisava de dois outros filmes para se firmar como um sucesso mundial. E a que se deve o sucesso do filme? Entre vários fatores, ao roteiro inovador. Ele não é uma adaptação ou um remake, ele tem uma história inovadora, que se baseia em conceitos de outros filmes, sim, mas que tem a coragem de criar um título e estilo próprio.  


Será que a ganância não permite que os grandes estúdios invistam tanto em ideias novas quanto em franquias já mundialmente conhecidas? Será que, com isso, a criatividade acaba limitada?  Na verdade, roteiristas e diretores não estão menos talentosos e com menos ideias.  A televisão americana hoje está muito mais criativa e bem sucedida do que o cinema. São diretores, roteiristas e atores de cinema que, cada vez mais, migram para a TV.  É só repararmos no  tanto que temos de séries muito boas fazendo sucesso. O fato é que, de uns tempos pra cá, produtores e estúdios investem cada vez mais no certo do que no incerto.

Continuações, remakes e adaptações não são novidades no cinema, como podemos ver no infográfico. Muitos clássicos e obras primas são adaptações de algum livro: O poderoso chefãoO silêncio dos inocentes e Drácula, são exemplos disso. Por outro lado, se a lógica do “não mexa nos clássicos” fosse seguida à risca pelos produtores, o mundo estaria privado de obras como o Drácula, de 1979, (um dos melhores já feitos sobre o personagem), do remake do clássico Drácula, com Bela Lugosi, e ficaríamos sem o Nosferatu, de 1979, dirigido por Werner Herzog.

E sem os reboots, não existira O Silêncio dos Inocentes, que é um reboot da tentativa de levar o personagem Hannibal Lecter para as telas, como tentaram fazer com o filme Manhunter, nos anos 80.  Scarface, dos anos 30, ganhou um remake com Al Pacino que se tornou referência. Muitos desses originais nunca entraram no panteão dos maiores filmes da história. Esse tipo de "reimaginação" é válida porque o realizador não estará mexendo numa obra já consolidada e conhecida do grande público. E o grande dilema atualmente é esse: como explorar uma propriedade intelectual consagrada, sem desgastá-la demais. Reinterpretações sempre serão bem vindas, contanto que haja aquela palavrinha mágica: bom senso.


De repente, as grandes bilheterias são quase sempre reboots ou adaptações de livros que já são best-sellers. Talvez seja preguiça de criar algo novo quando se pode copiar uma coisa já pronta e que já deu certo. Ou então, e muito provavelmente, talvez seja apenas vontade de ganhar dinheiro fácil - uma vez que o filme já existe, não é muito grande o desafio de refilmá-lo. Vai saber. Até gosto de filmes adaptados de obras literárias que já conheço, mas ficaria muito mais satisfeita em ver histórias novas e surpreendentes no cinema, e não só o mais do mesmo.

5 comentários:

  1. Gostei muito do artigo, concordo com as opinioes da autora!

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  2. adoro deixa ela entrar! o remake da trilogia millenium é bom, mas totalmente dispensavel, assim como varios outros!

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  3. Este comentário foi removido pelo autor.

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  4. Tati, adorei o post. Fiquei pensando sobre a questão que você levanta ao final: por que, afinal, são feitos os reboots. Numa visão mais romântica, gostaria de acreditar que não, não se refilma um clássico por falta de criatividade em bolar novos roteiros ou simplesmente porque o público americano não gosta de ler legenda. Acredito que haja também, em alguns casos, a vontade de um diretor de contar, à sua maneira, aquela história que o marcou no passado. Inclusive a minha versão preferida de "Lolita" não é a do Kubrick, mas sim aquela que traz Jeremy Irons no papel de Humbert Humbert.

    Assistindo a versão de Adrian Lyne, não consigo deixar de pensar que o diretor parte da necessidade de contar a história escrita por Nabokov, apresentando um novo ponto de vista sobre ela, e não simplesmente preocupado em fazer bilheteria.

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  5. Tati, os textos do site Video Sessions são seus também? Li a resenha de Grey Gardens e vi frases suas copiadas no site filmesdochico.uol.com.br, em uma resenha do mesmo filme. Vocês colaboraram para fazer o texto de filmes do chico?

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