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terça-feira, 28 de agosto de 2012

This Must Be the Place


Assisti This Must be the Place, do italiano Paolo Sorrentino, e foi com grande surpresa que percebi uma relação entre o personagem principal deste longa e um outro, também de origem italiana, mas filmado nos EUA, que atende pelo mesmo nome. Assim como o astro de rock Cheyenne, vivido por Sean Penn e escrito a quatro mãos pelo próprio Sorrentino e Umberto Contarello, conheci outro Cheyenne de 44 anos atrás em Once Upon a Time in the West, baseado na história que Bernardo Bertolucci e o diretor Sergio Leone criaram juntos.

O Cheyenne roqueiro dos dias de hoje, à primeira vista, em nada se parece com o bandidão do Spaghetti Western vivido por Jason Robards em 1968. O ex-astro do rock se arrasta de um canto a outro da tela em uma vida cujos grandes acontecimentos ficaram há mais de 20 anos de distância, enquanto o Cheyenne do Faroeste é um dos bandidos mais respeitados da região. E, se nos passos de seu homônimo vemos um certo despropósito, o oposto acontece com o bandidão: cada aparição do Cheyenne do Western é certeira como um tiro, sem espaço para as divagações corriqueiras do astro deprimido.

Cheyenne, vivido por Jason Robards em Once Upon A Time In The West, em 1968

Por outro lado, é possível encontrar muito mais semelhanças entre os dois do que a simples carcaça empoeirada de um ou a maquiagem exagerada do outro poderiam sugerir. Os motivos pelos quais o Cheyenne deprê de Sorrentino largou a música não são muito claros desde o início, mas em uma conversa com David Byrne (aham, David Byrne) o personagem explica que se sente culpado pelo suicídio de dois adolescentes cometidos em nome de uma letra sua. Já o Cheyenne do Faroeste é conhecido por sua infalibilidade na hora de cometer assassinatos. E aí percebemos como a vida de cada um dos personagens é pautada pela morte.

 Cheyenne vivido por Sean Penn, em This Must Be The Place, em 2011

No decorrer dos filmes, no entanto, vamos vendo a transformação de seus estereótipos. Aos poucos, o bandidão do Faroeste vai amolecendo e ele passa a proteger a mocinha Jill McBain, enquanto o roqueiro quarentão sai da concha e envereda em uma busca por vingança em nome de seu pai. Ao final, sabemos que nenhum dos personagens terminou o filme como começou: enquanto o ex-roqueiro perdido no tempo endurece, descobrimos que Cheyenne, o bandidão, amoleceu para proteger a bela dama.

Cheyenne (Jason Robards) e Jill McBain (Claudia Cardinale)
Além de visualmente deslumbrantes, cada um dos filmes conta com uma trilha sonora de fazer história. As músicas compostas por Ennio Morricone para o filme de Sergio Leone se misturam às cenas a partir da gaita, instrumento que acompanha o personagem principal em toda a trama. Do mesmo jeito, a trilha invade a cena em diversos momentos em This Must Be the Place e, se a crítica não tem sido assim tão favorável com o filme de Paolo Sorrentino quanto foi com o de Sergio Leone, é quase unânime que a sequência em que David Byrne canta a música que dá título ao filme é impagável.


segunda-feira, 13 de agosto de 2012

A Gata e o Rato

Por Tatiana Laai

Televina! Era assim que minha mãe me chamava, como a personagem da novela A Gata Comeu, a empregada engraçada que sabia tudo sobre o universo televisivo e vivia citando novelas. Foi meu lado Televina que me fez relembrar o seriado A Gata e o Rato, uma das minhas primeiras paixões televisivas, e elas são muitas!!

A Gata e o Rato (Moonlighting) estreou em 1985 e foi um marco na TV americana. Ouso dizer que se hoje parte da diversão dos fandoms de séries e animes é torcer por casais fictícios, A Gata e o Rato tem muito a ver com isso. Muito antes dos “shippers” de plantão enlouquecerem por Mulder e Scully, no Arquivo X, ou por Sasuke e Naruto, em Naruto, a coisa fervia por Maddie e Addison.   
    
Maddie Hayes (Cybill Shepherd) é uma ex-modelo, bem-sucedida, linda, glamurosa, independente, trabalhadora e sexy, até o dia em que seu empresário desaparece com todo o seu dinheiro, deixando para trás somente uma das propriedades de sua cliente: a Agência de Detetives "City Angels".  Não foi por bondade do empresário: a agência havia sido criada apenas para dar prejuízo e gerar reduções nos impostos. Na falência e cheia de dívidas, Maddie é convencida pelo funcionário bom de lábia David Addison (Bruce Willis), um cara esperto, sedutor e boa pinta, de que a agência poderia dar lucro. Eles rebatizam a empresa de “Blue Moon" e Maddie se descobre uma boa detetive particular.

Logo, A Gata e o Rato deveria ser um seriado de detetives, certo? Mais ou menos, mais pra menos. David Addison é charmoso, desencanado, divertido, folgado e cínico. Maddie é séria, mega responsável, refinada, um tanto controladora e fria. Juntos eles são nitroglicerina pura: muita atração e antipatia, muita briga e tensão sexual, muitos diálogos rápidos e espertos e uma pergunta intrigante: eles vão ficar juntos, ou não vão? Pegue dois personagens carismáticos e charmosos, junte os dois com muita química, e está pronta a receita de uma boa comédia romântica, bem temperada com ação, suspense e até um dramazinho.

Esta é a “guerra dos sexos” que mais fez sucesso na TV dos anos 80. A série foi inspirada no clássico cinematográfico Jejum de Amor (His Girl Friday, 1940), estrelado por Cary Grant e Rosalind Russell, confirmando sua origem romântica no melhor da comédia do gênero da era de ouro do cinema, e virou inspiração para tantas outras. A mais recente e óbvia é a série Castle, também com um casal de detetives. Agora, chegando ao final da quarta temporada, a pergunta que não quer calar é: quando é que o escritor Richard Castle e a detetive Kate Beckett (vividos por Nathan Fillion e Stana Katic, respectivamente) vão ficar juntos e  acabar logo com esse suspense?


Quem também se divertia com as brigas de Maddie e Addison e não perdia a chance de fofocar sobre eles era a atrapalhada secretária  Srta  DiPesto  (Allyce Beasley) que não cansava de ver os dois saírem discutindo do escritório e, como uma representante do público, vivia especulando sobre a paixão entre os briguentos. Com uma voz muito esganiçada e um ar de louquinha, ela vivia fazendo rimas ou ficava plantada falando sozinha, depois de uma discussão entre David e Maddie. Mais tarde Curtis Armstrong (de A Vingança dos Nerds), se uniu ao elenco interpretando um empregado temporário chamado Herbert Viola, que passou a ser também investigador da agência. Viola e Dipesto acabaram tendo um relacionamento, que por sinal era muito parecido com o dos patrões. O casal também era responsável por grande parte das cenas cômicas da série.

O jogo de gata e rato (trocadilho adotado como título no Brasil é bastante adequado) entre  Maddie e Addison durou 2 temporadas. Todo mundo ficava em frente à TV roendo as unhas para saber quando é que o casal barraqueiro ia, enfim, partir para os finalmentes. E o dia D veio em 31 de março de 1987. Numa cena polêmica, com uma violenta briga e muitos tapas! David e Maddie finalmente vão para a cama, encerrando a expectativa de milhões de expectadores americanos. No Brasil, a série foi apresentada  pela Rede Globo em meados da década de 1980. Depois foi comprada pelo SBT, nos finais dos anos 90. Também foi exibida pelo canal a cabo Sony (2003) e Multishow (2005).

A tal cena foi assunto de alguns dos maiores jornais dos Estados Unidos, como o Chicago Tribune e o Los Angeles Times, e deu manchete no New York Times: “Maddie Hayes e David Addison se tornarão amantes hoje às nove da noite, e a ABC quer ter certeza de que todos saibam disso”. Graças à estratégia do canal, à propaganda nos guias de TV e à ansiedade dos fãs, todo mundo ficou sabendo mesmo: o episódio teve 44% de audiência nos Estados Unidos em pleno horário nobre. Mais de 60 milhões de pessoas assistiram ao tão esperado momento entre tapas e beijos e o seriado entrou oficialmente para a  história da TV.

Mas não só por isso. Sempre dosando, a cada episódio, humor súbito, humor escrachado e drama, a série la se tornou uma das primeiras de um gênero que viria a ser conhecido como "dramédia" e tornou-se conhecida por constantemente "derrubar a quarta parede" - termo emprestado do teatro, que explica o seguinte: como os espectadores precisam assistir ao que acontece, o palco só tem três paredes, a do fundo e as dos lados; a parede da frente é "invisível", e é através dela que enxergamos a ação; ao derrubar a quarta parede, os personagens falam ou fazem coisas que nos mostram que eles têm consciência de que aquilo não é real, fato que nem sempre combina com o que estamos assistindo.  Addison, por exemplo, frequentemente dizia coisas como "o canal jamais nos deixará fazer isso", ou "a culpa não é minha, é dos roteiristas", enquanto os demais personagens olhavam atônitos, como se não compreendessem o que ele queria dizer. Essas falas não eram improviso, mas constavam do próprio roteiro, fazia parte do humor do seriado.  A Gata e o Rato não foi a primeira a fazer uso desse recurso, mas foi a primeira a fazê-lo com sucesso. A série mereceu uma menção dos diretores da "Guild of America", como uma das melhores séries de dramédia dos últimos 50 anos da televisão.

Depois que o casal briguento levou suas desavenças para baixo dos lençóis, o seriado começou a perder audiência e a ter problemas de produção, com muitos atrasos e brigas entre a equipe. Os atores-protagonistas ficavam cada vez menos disponíveis para a série: Cybill estava grávida e Bruce Willis, até então um desconhecido, após ganhar um Globo de Ouro de melhor ator pela atuação no seriado, começou sua bem sucedida carreira cinematográfica (o primeiro filme da série "Duro de Matar" seria lançado em 1988). A série foi cancelada em 1989, mas não sabemos exatamente o que causou o fim.  Uns dizem que foi o desencontro entre os dois atores principais, disponíveis somente parte do tempo e em épocas diferentes (além de inúmeros choques nos bastidores), outros acham que depois que o casal se entendeu a série perdeu o charme. Teria sido a consumação da expectativa dos telespectadores que minou o interesse pela história? Será que o povo gosta mesmo é de romance em suspense, cheio de tapas e beijos?!

Em seu auge, A Gata e o Rato conquistou picos de audiência e a simpatia da crítica. Ao todo, foram 39 indicações ao Emmy e 7 prêmios. Bruce Willis levou um Emmy e um Globo de Ouro de melhor ator. Cybill Shepherd, 2 Globos de Ouro.  A música-tema da abertura “Moonlighting Theme”, de Al Jareau, foi indicada ao Grammy de 1988. Maddie e David foram escalados várias vezes entre os “melhores casais da TV”.

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

Song Pop e o sucesso

A febre já passou (será?), mas o vício ficou para um bom número de usuários. Entre os vários aplicativos chatos do facebook que você recebe todos os dias, o Song Pop parece que conseguiu a árdua missão de agradar a gregos e troianos (Zuckerberg que o diga). Com mais de 2 milhões de fãs, a empresa responsável (Fresh Planet) lançou uma versão premium do joguinho. Minha experiência com o game começou um pouco atrasada, acho que não botava nenhuma fé quando me enviavam pedidos – imaginava mais um jogo chato de facebook e ignorava. Passado mais de um mês, resolvi pagar pra ver. Atualmente, Song Pop se tornou um passatempo diário.

Se você é daqueles que não se “vende” facilmente por qualquer coisa do facebook, vale ler o texto abaixo com as instruções básicas do jogo. Caso já esteja cansado de jogar Song Pop, pule o parágrafo.

Aí vai uma explicação resumida: vocês lembram de “Qual é a Música”? Aquele programa do SBT com um sujeito estranho chamado Pablo, fazendo dublagens de canções populares? 
É um bom exemplo para introduzir. Primeiro se escolhe um estilo – que vai dos mais chatos e aleatórios, Modern Rap ou Today’s Hit, aos realmente divertidos e competitivos: Classic Rock e até MPB. Aí aparecem  quatro músicas ou artistas, além de uma contagem de tempo. Quanto mais rápido e certeiro você for, em melhores condições estará contra o seu adversário (que pode ser seu amigo ou um desconhecido da rede social). São cinco etapas, quem acertá-las em maior número, o mais rápido possível, vence. Terminada a rodada, você aguarda seu rival devolver o desafio. E por aí vai... durante uma semana. Na semana seguinte começa outra partida.

 
Quantas vezes você já ouviu essa canção no Song Pop?

Já jogo há mais de um mês. Nesse meio tempo, viciei alguns amigos – a ponto de vê-los jogando em iPhones e PCs na mesma casa, simultaneamente. Essa trajetória de amor e vício com o jogo me fez chegar à seguinte teoria de botequim: o Song Pop é tão querido porque une música, um vício universal, com a diversão dos tempos contemporâneos, fragmentados e acelerados. Quantas vezes a gente não se pega lendo um texto e, de repente, esse um se transforma em mais três... ao mesmo tempo! E as possibilidades que o Napster e Kazaa (os anciões entre programas de baixar música) nos deram? Conhecer o David Bowie em diferentes épocas a partir de uma dúzia de músicas – sem precisar gastar com um best of (embora eu desde sempre seja a favor de ouvir o álbum por inteiro!). Entre outras histórias que já estamos cansados de ouvir, e que as vezes nos fazem crer que temos todos TDAH.

Me parece que os desdobramentos do Song Pop são plenamente positivos. Afinal, além de nos obrigar a ampliar o leque de conhecimento musical para vencer, mesmo que isso tenha que ser feito por uma fração de segundos, o jogo nos faz deixar alguns preconceitos de lado em prol da vitória. E o mais importante, faz a pessoa ter um mínimo de interesse por aquilo que ouve. Quantas foram as músicas que, após ouvir 3 segundos, resolvi procurar na íntegra no youtube ou grooveshark após a partida. A partir daí, conhecemos uma gama imensa de sons novos. Bom, assumo que além de viciado, exalto o Song Pop em todas as instâncias: do entretenimento às oportunidades de conhecimentos musicais.


Lembrando que a versão original do programa de TV americana se chamava ”Name That Tune” e começou em 1952, o Silvio sabia o que estava fazendo ao reeditar a popular fórmula há uns anos, que nesta versão da era da internet amplia o sucesso fundindo jogadores e audiência.

Segue o link para a matéria publicada hoje no jornal O Globo sobre o interesse do Song Pop no Brasil (3° lugar em termos de popularidade no mundo) - http://oglobo.globo.com/cultura/o-song-pop-agora-quer-entender-brasil-5697602

domingo, 29 de julho de 2012

Alfred Hitchcock, "the real McGuffin" da história do cinema


O texto de Vinicius Marins propõe uma brincadeira: encontre o McGuffin da história. Até gente como eu, que adoooora filmes e não conhecia o termo, ficou sabendo quem o mencionou publicamente pela primeira vez. Não deu para surpreender - foi mais um lance do diretor que fez muitas inovações no cinema: Hitchcock.

Nascido em Londres, em 1899, de numa família supercatólica, Alfred Joseph Hitchcock trabalhou um pouco em publicidade e estudou muito a obra de Fritz Lang e outros diretores. Fã do expressionismo alemão, podemos perceber a influência do gênero em seus filmes. Ele apareceu para o grande público no início dos anos 40, após se mudar para a América, mas, para quem não sabe, sua carreira começou bem antes disso. Seu primeiro filme é de 1924 e no ano seguinte lançaria seu primeiro sucesso: The Lodger, um thriller vagamente inspirado na história de Jack, o estripador.  A partir daí o diretor praticamente viria a fazer um filme por ano.


Revolucionando a estética cinematográfica e o modo de fazer traillers, o sarcástico Hitchcock sempre dava um jeitinho de aparecer em suas famosas tramas de suspense. Com 67 filmes na carreira, tornou-se um dos mais produtivos, famosos e populares cineastas da história, marcando para sempre a cinematografia do suspense.


Hitchcock ficou conhecido internacionalmente em meados dos anos 30 com o filme O Homem que sabia Demais, que futuramente seria filmado novamente na América, com os queridinhos Dóris Day e James Stewart. Logo depois, Hitch se firmaria com o filme Os 39 degraus, um dos suspenses ingleses de maior sucesso na época. Foi quando começou a chamar a atenção de Hollywood.


Rapidamente Hitchcock se estabeleceu em Hollywood e sua parceria com o famoso produtor David O. Selznick, o mesmo de E o Vento Levou..., vencedor do Oscar de melhor filme de 1939, resultaria no super oscarizado Rebecca, que ganhou a mesma estatueta no ano seguinte. O filme o transformou em um diretor que podia atrair público e, por consequência, render muito dinheiro.


Nos anos seguintes Hitchcock se tornaria uma referência e faria vários experimentos, desde uma sequência idealizada por Salvador Dali até o ambicioso Festim Diabólico, filme que não foi editado e cujas pausas foram feitas somente para trocar os rolos. Sua parceria com Saul Bass, designer, e Bernard Herrman, para as trilhas sonoras, também foram de extrema importância para a construção do mito.



Em 1954, ele lançaria dois filmes com Grace Kelly, disque M para Matar e aquele que viria a ser um dos mais conhecidos e o maior sucesso na época, Janela Indiscreta, com James Stewart (na foto da home no site), também revolucionário em estética e narrativa, no qual o protagonista ficava confinado em um apartamento e o filme se desenvolve do ponto de vista fragmentado deste personagem.


Hitchcock gostava de desafiar o espectador e isso o levou a um novo empreendimento: a série para televisão Alfred Hitchcock Presents. O homem era danado, além de top diretor, transformou-se numa celebridade da televisão! A série se entendeu por oito temporadas e tinha o próprio diretor como host. Seu jeito ácido e brincalhão conquistou milhões e a revista Time incluiu a série entre os dez melhores shows de TV em todos os tempos.



Entre tantos filmes, acho que assisti Vertigo (Um corpo que cai) umas dez vezes e, conforme o tempo foi passando, as minhas dúvidas foram mudando. Como ele fazia essa movimentação de câmera? Como ele foi pensar nisso numa época em que ainda não se usava CGI (computação gráfica)? Como ele idealizou a sequência da vertigem que o James Stewart sente quando está em lugares altos? O efeito, usado pela primeira vez no cinema, surpreendeu tanto e ficou tão famoso que ficou conhecido como Vertigo Effect.


Podemos ficar dias falando de Hitchcock e seus filmes, o diretor é um dos maiores ícones do cinema mundial e continua influenciando jovens diretores até hoje. Sem Hitchcock, a história do cinema mundial com certeza não seria a mesma coisa, ficaria mais rala e perderia muito a graça.

quinta-feira, 5 de julho de 2012

Em busca das origens de iamamiwhoami




Outro dia, estava em um dos sites que mais gosto de passar o tempo - o rateyourmusic.com - e me deparei com um álbum deste ano, chamado “kin” de um(a) tal de iamamiwhoami. Pois é: quem?!


Dando seguimento às investigações, entrei no youtube para ouvir as canções da criatura. Eis que algo ainda mais revelador aconteceu. Descubro que a pessoa em questão – uma jovem loira – fez do seu álbum uma obra audiovisual, onde todas as faixas são clipes. A partir daí, como um bom detetive, abri os arquivos que tinha à minha disposição (ou o histórico de vídeos do youtube no canal da artista).

Para mais uma surpresa, o primeiro vídeo do canal era uma espécie de teaser pra lá de esquisito... Chegando ao fim, me lembrei de já tê-lo assistido há alguns anos: na época, acreditava que o vídeo era um trailer misterioso para o álbum-visual do grupo psicodélico Animal Collective, que estava prestes a ser lançado. Mas esqueci do vídeo, e nunca cheguei a assistir o filme do Animal Collective. Agora, este vídeo criava uma grande confusão mental. Estava envolvido numa trama, e precisava entender quem era, de fato, iamamiwhoami.

"Prelude 699130082.451322-5.4.21.3.1.20.9.15.14.1.12", ou o teaser em questão!

Ela é Jonna Lee. Antes de ser a personagem que me levou a esse texto, a cantora sueca fazia um indie pop despretensioso que pouco chamava atenção. Então, a partir do vídeo mencionado de menos de um minuto, Joanna surgiu para o mundo. Em seguida, uma série de mini-clipes estranhos, com digitos e mensagens subliminares, continuaram a serem lançados no youtube. A imprensa suspeitava da autoria: Björk? Lady Gaga? Trent Reznor (vocalista do Nine Inch Nails)? Até mesmo a cantora pop Christina Aguilera foi cogitada... Eu e outros fãs do Animal Collective acreditavamos que fosse obra da banda.

trecho do álbum-visual do Animal Collective

Então, os clipes deixaram os números de lado e deram lugar à letras, as primeiras foram “b” e “o”. Nesses vídeos, o rosto da personagem ficava em evidência, mas a maquiagem e as distorções não deixavam o público descobrir sua identidade. Mesmo assim, a partir dos clipes, alguns fãs de Lee já começaram a suspeitar da sua nova persona, embora a assessoria da cantora tenha publicado uma nota que, caso a artista estivesse envolvida nisso, eles não tinham o menor conhecimento. A sequência de letras formaram a palavra “bounty” (“generosidade” em inglês). Até o fim da série, já se tinha noção que a misteriosa cantora loira tratava-se mesmo de Jonna Lee.

As travessuras de iamamiwhoami não terminaram aí. No final de 2010, a cantora produziu algo ainda inominável na história da música: uma espécie de videoclipe ou album visual em plano-sequência. A perfomance, chamada de In Concert, foi transmitida ao vivo na internet. Em mais de uma hora, iamamiwhoami canta as músicas de Bounty, enquanto atua numa espécie de peça ao ar livre. A história conta os últimos momentos de vida de um homem: o protagonista caminha por uma floresta; dança com a morte ou um espírito da floresta (interpretado pela própria Jonna); é velado e, por fim, incinerado e enterrado. Ainda há tempo para a morte (ou iamamiwhoami) tocar uma canção celebrando a finitude do sujeito.

iamamiwhoami - "In Concert"

Os vídeos da cantora são baseados em experimentação, mas todos se interligam, sendo, assim, conceituais. A estética e temática propõem assuntos que estão em pauta: uma abordagem crítica sobre a destruição do meio ambiente. Por exemplo, grande parte da obra se passa em uma floresta, porém o ambiente encontra-se envolto em papéis, alumínios e outros materiais que consumimos diariamente. Iamamiwhoami surge como a representação de elementos que simbolizam a degradação da natureza: com o corpo totalmente negro (uma possível representação do petróleo); com alguns pingo de neve (uma metáfora do degelo).

Atualmente, a cantora promove seu primeiro álbum “oficial” sob a alcunha de iamamiwhoami. E já carrega no currículo uma série de prêmios e indicações relativos à sua inovação no mercado fonográfico, em especial.

Há cerca de um ano atrás, eu tentava encontrar algumas respostas para os caminhos que os videoclipes estavam tomando. A verdade é que as ações de iamamiwhoami estão, sem dúvidas, entre os mais relevantes. Não só pelos os clipes, mas pela amplitude de diálogo que o músico contemporâneo pode ter com seu público. Sem contar que a sua história daria uma bela HQ noir dos tempos atuais: a cantora loira que vem intrigando a imprensa mundial, com seus vídeos que dominam o youtube e tornam-se virais da noite para o dia.

o antes, Jonna Lee e seu simpático indie pop

o agora, iamamiwhoami e uma das canções de seu novo álbum

quinta-feira, 21 de junho de 2012

PotterMoore: o parque de diversões do escritor entediado.


Mesmo depois do fim da saga, o bruxo não tem paz. Não estou falando daquele amigo do Raul Seixas, mas do órfão, míope e bode expiatório dos planos de Dumbledore. Desta vez, o salvador de Hogwarts virou assunto de um sério estudioso da alta magia e escritor de quadrinhos, o sempre cabeludo Alan Moore.

Teve gente que, como eu, achou graça na notícia publicada na segunda-feira, no Globo, reproduzindo a reportagem do britânico The Independent - Alan Moore transforma Harry Potter no anticristo -, mas Juliana Giglio não foi uma delas. “Que os fãs me perdoem, mas eu tenho preguiça do Alan Moore”, diz ela. Pronto, estava aberto o debate. Gosto do cara, e imagino que por trás de tanta barba, cabelo e bigode, haja um espírito gaiato sempre pronto pra virar um mito de ponta-cabeça, pela farra de brincar com a coisa toda. Sei também que, ao usar a palavra "gaiato", metade dos seguidores de Moore me olharão torto, mas acalmem-se que a discussão mal começou.

Vinícius Marins entra na conversa para contar que, nos últimos anos, Moore tem mesmo sido mais conhecido por sua ranhetice, e por criticar os atuais quadrinhos americanos e o quanto a DC se aproveita do sucesso das obras que ele publicou pela editora. Existe fundamento nisso: a DC acaba de lançar minisséries estreladas pelos protagonistas de Watchmen com aventuras que se passam antes da obra do Moore.

O comentário aumenta o barulho das moças, Mariana e Juliana têm carinho especial pelo menino bruxo e Doris bota lenha na fogueira, provocando os nerds:

- Alan Moore, e também o Gaiman, são mestres em se apropriar de histórias dos outros para reescrevê-las. Pode ser que o senhor Moore esteja fazendo outra coisa considerada genial, para quem gosta do gênero. Mas acho suficiente que as histórias sejam apresentadas e o jornal inglês poderia perfeitamente fazer isso sem acirrar os ânimos.

Tatiana Laai acha que a polêmica é coisa mais da imprensa do que de Alan Moore, e até que faz sentido:

- Ele já brincou com o Potter no Lost Girls, por exemplo, e não lembro disso ter dado pano pra manga. Acho que o Moore anda meio ranzinza mesmo, mas daí a arrumar quizumba com fã de Harry Potter de graça, acho que não...

Vinícius e eu concordamos, achamos que tem dedo do sensacionalismo britânico no imbroglio, seja para movimentar as vendas de Moore ou trazer o nome de Potter à imprensa, e não acreditamos que isto vá denegrir as histórias do guri com o raio na testa.  Vinícius aproveita para dar uma aula (oba!):

- Essa graphic novel é a terceira parte da última aventura que Moore escreveu da Liga dos Cavaleiros Extraordinários, que já estrelaram um filme e tem seus fãs. Normalmente, quem gosta não conhece a obra original. A proposta da saga é mesmo mexer com grandes personagens da literatura que conviveriam em um mesmo universo.  Alan Quatermain, de As Minas do Rei Salomão, por exemplo, é um maníaco depressivo viciado em ópio.

Esta última saga foi dividida em três partes: Century: 1910, Century: 1969 e Century: 2009. Contam como a Liga agiu durante todo o século XX e dá amostras de como estariam agora no século XXI.  A capa da última parte, com a citação de Harry Potter, é esta:  


E eu, que adoro o humor iconoclasta desse inglês maluco, fecho esta rinha de gigantes com uma ideia: deveríamos desafiar o Alan Moore a fazer uma história totalmente diferente do universo que ele tanto gosta de revisitar. Vamos desafiá-lo a recriar um exemplar da nossa literatura de cordel, e em sextilha!


O que acham?
Alguém tem o e-mail dele aí?

terça-feira, 19 de junho de 2012

Tim Burton, nem tão estranho assim

A exposição Tim Burton é uma experiência difícil de não envolver o visitante. Tanto é assim que, logo na primeira sala, poucos são os que de fato demonstram surpresa diante de uma escultura com gengibre e olhos de plástico, feita por Tim Burton.

Desta forma, somos bem-vindos ao mundo do imaginário do cineasta na mostra originalmente organizada pelo MoMA de Nova York. A instalação temporária atualmente abrigada na cinemateca de Paris, que vai até 5 de agosto, é uma pequena pérola, que não se furta a brindar o visitante com as criaturas mais bizarras (e adoráveis) que Burton já criou, seja no papel ou no cinema.

Dentre homens com cachorros como olhos e versões primitivas do que um dia viria a ser Jack Skellington (protagonista d’O estranho mundo de Jack, de 1993), o passeio através das salas relativamente amplas da Cinemathèque é pontuado pela exibição de animações e filmes amadores do diretor, produtor, roteirista e escritor, além de trechos de seus grandes títulos: estão lá, por exemplo, cenas de A fantástica fábrica de chocolate, Sweeney Todd, Edward Mãos de Tesouras e até mesmo sua primeira direção live-action, o pouco conhecido no Brasil (e bastante estranho) Pee-Wee’s Big Adventure, de 1985.

Os títulos hollywoodianos também recebem atenção através de croquis, anotações de Burton e acessórios de cena (como uma réplica de topiaria de Edward, máscaras de Batman, as navalhas de Sweeney e alguns dos modelos de Noiva Cadáver, além de alguns dos bonecos da Fábrica de Chocolate (ligeiramente queimados e bastante perturbadores).

O último título do diretor – Sombras da Noite – também está presente, no final da seção dedicada a seus trabalhos cinematográficos: estão lá o colar do personagem de Depp e o vestido vermelho de Eva Green.

Mas o ponto alto parece ser mesmo a coleção de desenhos preliminares e artes conceituais de Burton. De rascunhos bastante crus a imagens refinadas, o visitante se torna espectador de seu processo criativo, que muitas vezes parte mais de imagens do que de textos: a veia de artista visual do diretor se faz presente através de traços e cores de seus cenários e de seus personagens.


Além disso, estão expostas algumas de suas páginas poéticas. Burton é autor de um livro de poesia infantil, chamado The melancholy death of Oyster Boy and other stories, no qual ele não deixa de lado sua marca mais característica: a mistura do macabro e do cômico.

Tim Burton faz jus ao homenageado, sem se focar em sua vida particular. O que interessa aqui é seu trabalho e sua galeria de personagens estranhos, verdadeiros outsiders que não tentam se encaixar. O que não deixa de ser um reflexo do homem por trás de tudo isso.