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quinta-feira, 22 de maio de 2014

Rubem Fonseca e o poeta

por Leandro Müller  



Queridíssimo Lerme

Você é apenas um bebê e ainda vai levar alguns anos até que alcance o entendimento das coisas que tratarei aqui, mas como seu tio e padrinho, quando recebi o convite para escrever um pouco sobre Rubem Fonseca, foi em você que pensei para explicar as razões do porquê conhecer a obra desse escritor.

Com o passar dos anos, você perceberá que não faltarão pessoas te dizendo para ler, e indicando o que ler (geralmente tentando obrigá-lo). Contudo, a maioria não te convencerá. Eu mesmo passei incólume pelos livros até o início da vida adulta. Só mais tarde me dei conta de que a literatura não está só nos livros, ela se esconde nas estórias, pode ser um filme, uma série, um jogo, uma música. Ela nasceu na tradição oral e foi se adaptando, se apropriando dos suportes que a tecnologia inventava. Por isso, Lerme, gostaria que você soubesse que ler nada mais é que escutar uma narrativa.

Entre esses que contam estórias (fictícias ou reais), devemos escutar a dois tipos de pessoas: as que têm paixão por seu tema (e falam sobre ele com entusiasmo) e aquelas que sabem do que estão falando, que conhecem o assunto sobre o qual discorrem, ou que ao menos acreditam verdadeiramente conhecê-lo. Rubem Fonseca pertence simultaneamente a essas duas categorias.

Seu notório conhecimento sobre os temas a que se dedica fica evidente em um conto, ou quase novela, chamado Romance Negro, onde faz citações de inúmeros escritores habilidosos, entremeados por uma verdadeira aula de história do gênero policial. Somos convidados a um jogo de adivinhação enquanto aprendemos a distinguir as diferenças entre a escola americana e a escola inglesa de tal literatura “obscura”. Um prato cheio para quem gosta de aprender com quem sabe, como eu.

Os especialistas na obra deste escritor irão apontar várias virtudes em seus textos (e até alguns defeitos, dependendo de quem for o crítico). Mas não é por causa do que eles dizem que você deve ler, e sim pelo próprio autor, porque ele é capaz de capturar exatamente o que sentimos. Por exemplo, veja esse trecho do conto O Cobrador, que parece ser o predileto da maioria e que está presente obrigatoriamente em tudo que se diz sobre o Fonseca: “A rua cheia de gente. Digo, dentro da minha cabeça, e às vezes para fora, está todo mundo me devendo! Estão me devendo comida, buceta, cobertor, sapato, casa, automóvel, relógio, dentes, estão me devendo.(...) Tão me devendo colégio, namorada, aparelho de som, respeito, sanduíche de mortadela no botequim da rua Vieira Fazenda, sorvete, bola de futebol. (...) Estão me devendo xarope, meia, cinema, filé mignon e buceta...” Espero que nunca aconteça para você o dia em que achará que a sociedade lhe deve, e que chegou a hora de cobrar. E espero que não se utilize jamais das mesmas vias que o personagem deste conto.

Agora vou lhe contar como esse autor realmente me arrebatou. Foi numa tarde comum, no meio de uma semana ordinária, nos meus saudosos dias de livreiro, que o leitor Rubem Fonseca entrou na livraria e me pediu que lhe indicasse a seção de poesia, para onde o conduzi. Um tempo depois, já novamente imerso nas atividades da lida cotidiana, senti que ele me tocava calmamente o ombro, com um sorriso de menino, chamando-me a atenção para os livros que levava: poetas ingleses românticos. Foi ali que me dei conta de algo maior, que me revelou a verdadeira razão para se ler aquele escritor...

Você gosta de segredos, Lerme? Então, preste atenção, porque este pouca gente conhece: apesar de o definirem como pai do romance policial no Brasil, na verdade, Rubem Fonseca é um poeta. Um poeta apaixonado. Não sei disso simplesmente pelo sem número de vezes que poetas e poemas se escondem sutilmente em suas obras, como Baudelaire* e Camões**, mas pela forma como desenvolve temas propriamente poéticos, como o fascínio pelos ossos ressaltados das mulheres, que só um poeta consegue admirar e que ele deixa à vista nos contos Mandrake, O corcunda e a Vênus e no já mencionado Romance Negro. O fascínio é um sentimento lindo e raro (muitas vezes confundido com a obsessão, mas sobre isso conversamos em outra ocasião), principalmente neste mundo em que rapidamente nos acostumamos a tudo. Nunca devemos perder a capacidade de nos pasmar!

Foram essas circunstâncias, Lerme, que me levaram a gostar do Rubem Fonseca. Espero que elas sirvam de guia para que você encontre suas próprias razões para também apreciá-lo, e a outros autores que venham a ser seus favoritos.


Comece por este aqui:  64 contos, Rubem Fonseca. São Paulo: Companhia das Letras, 2004, mas não deixe também de ler os romances Bufo & Spallanzani e Diário de um Fescenino. 


Notas:

*O Baudelaire escondido:
“(...) vendo-a distanciar-se agile e noble, avec as jambe de statue, até que ela desapareceu no meio da multidão.” (Mandrake. p.309.)


BAUDELAIRE, Charles. As flores do mal. Tradução, introdução e notas de Ivan Junqueira. Edição biligue. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985.


XCIII
A une passante

La rue assourdissante autour de moi hurlait.
Longue, mince, en grand deuil, douleur majestueuse,
Une femme passa, d'une main fastueuse
Soulevant, balançant le feston et l'ourlet;

Agile et noble, avec sa jambe de statue.
Moi, je buvais, crispé comme un extravagant,
Dans son oeil, ciel livide où germe l'ouragan,
La douceur qui fascine et le plaisir qui tue.

Un éclair... puis la nuit! - Fugitive beauté
Dont le regard m'a fait soudainement renaître,
Ne te verrai-je plus que dans l'éternité?

Ailleurs, bien loin d'ici! trop tard! jamais peut-être!
Car j'ignore où tu fuis, tu ne sais où je vais,
O toi que j'eusse aimée, ô toi qui le savais!


XCIII
A uma passante

A rua em torno era um frenético alarido.
Toda de luto, alta e sutil, dor majestosa,
Uma mulher passou, com sua mão suntuosa
Erguendo e sacudindo a barra do vestido.

Pernas de estátua, era-lhe a imagem nobre e fina.
Qual bizarro basbaque, afoito eu lhe bebia
No olhar, céu lívido onde aflora a ventania,
A doçura que envolve e o prazer que assassina.

Que luz... e a noite após! – Efêmera beldade
Cujos olhos me fazem nascer outra vez,
Não mais hei de te ver senão na eternidade?

Longe daqui! tarde demais! "nunca" talvez!
Pois de ti já me fui, de mim tu já fugiste,
Tu que eu teria amado, ó tu que bem o viste!


**O Camões escondido:
“Isso aqui: transforma-se o amador na coisa amada, por virtude de muito imaginar... que mais deseja o corpo alcançar? Que diabo o poeta quer dizer com isso?” (O corcunda e a Vênus de Botticelli. p.720.)

Luís de Camões

Transforma-se o amador na cousa amada,
por virtude do muito imaginar;
não tenho logo mais que desejar,
pois em mim tenho a parte desejada.

Se nela está minha alma transformada,
que mais deseja o corpo de alcançar?
Em si somente pode descansar,
pois consigo tal alma está liada.

Mas esta linda e pura semidéia,
que, como o acidente em seu sujeito,
assim co’a alma minha se conforma,

está no pensamento como idéia;
[e] o vivo e puro amor de que sou feito,
como matéria simples busca a forma.

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

Um empreendedor nômade no mundo da música


por Thiago Ortman



O cineasta francês Vincent Moon é provavelmente o maior nômade da música atual. Surgiu para o mundo com uma ideia simples e inovadora: filmar artistas famosos fazendo sua música nas ruas. Em 2007, com o selo/site La Blogothèque, colocou o jovem Zach Condon, mais conhecido como Beirut, para cantar e tocar seu trompete em meio aos cafés parisienses. Em 2008, acompanhou a banda indie Arcade Fire durante a turnê do álbum Neon Bible e registrou tudo no making of Mirror Noir. Seu estilo de “videoclipe” ficou mundialmente conhecido, e foi replicado em todos os cantos.

No fim de 2008, Moon partiu para uma nova investida e iniciou uma jornada sem fim pelo planeta - pelo menos até o momento. Partia de um canto ao outro com seu mochilão, filmando tudo que considerava relevante relacionado à música. Fez uma travessia pelos mais distintos estilos musicais, visando em especial os artistas alternativos e de cancioneiro regional.

Três anos mais tarde, Vincent Moon lança a Collection Petites Planètes (Coleção Pequenos Planetas, ao pé da letra). O francês basicamente deu nome aos bois e criou uma marca para a exploração etnográfica musical que já estava fazendo há algum tempo. Polonia, Chile, Brasil, Islândia, Singapura, Austrália e Filipinas foram alguns dos países que Vincent cruzou para registrar suas raízes musicais tradicionais.

Com um estilo visual próprio, muito contraste e priorizando as cores amarela e preta, o cineasta independente trabalha solitário ou com pessoas com quem faz amizade no caminho. Em sua primeira passagem pelo Brasil, entre 2010 e 2011, Vincent selecionou um repertório amplo de artistas, que passava por ícones como Ney Matogrosso, Tom Zé e Naná Vasconcelos, além de encontrar jovens apostas, como a finada banda carioca Letuce, o multi-instrumentista paulista M. Takara, e a ainda desconhecida Gaby Amarantos.

Moon retornou ao país no ano passado para filmar gente que hoje tem sua carreira mais consolidada, como Criolo, BNegão e Metá Metá – a série chama-se Sons do Brasil 2013. O mais interessante nos registros do francês é que, muitas vezes, ele faz com que seus “personagens” encontrem um lugar afetivo no registro. No vídeo com Criolo, ele filma o rapper numa roda de samba no Grajaú (de São Paulo), seu local de nascença, para depois mostrá-lo ao lado do amigo, Projota, também rapper, no bairro paulista, em um show emocionante.

Através dessa série imensa de vídeos, Vincent Moon abre frente para um tipo de arquivo musical que harmoniza com os intuitos da web. O francês colabora para gerar um acervo audiovisual fundamental para a música mundial, e tudo isso com creative commons, isto é, com licenças abertas para quem quiser baixar os vídeos e passar para frente sem problemas. Que Vincent prossiga registrando a música pelo mundo a fora.



Um vídeo com a extinta banda carioca Letuce, o grande Jards Macalé e Criolo:


Take Away Show _ LETUCE from Vincent Moon / Petites Planètes on Vimeo.



O PATO • a very short portrait of JARDS MACALÉ from Vincent Moon / Petites Planètes on Vimeo.



◊ Sons do Brasil 2013 ◊ CRIOLO ◊ from Vincent Moon / Petites Planètes on Vimeo.


Entrevista com Vincent:


Viajantes | Vincent Moon from horto filmes | clara cavour on Vimeo.

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

AlCast 011: O Novo Velho


Versão integral (42 min.) || Clique para baixar a mp3 da versão integral


Versão curta (31 min.) || Clique para baixar a mp3 da versão curta

Lunáticos, ouvintes e leitores, este é o AlCast sobre novas velharias e velhas novidades. Tati Laai, Raphaela Leite, Thiago Ortman e Victor Mattina conversam sobre a mania em olhar para o passado em busca de novidades, o valor do vintage, colecionar vinis e muitos mais.

sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

Pra fechar um ano que já se foi



 por Thiago Ortman



2013 passou rápido como qualquer outro. E o que resta dos últimos dias – além de champagne e rabanada – são aquelas listinhas de músicas, livros e filmes, que na maior parte das vezes servem para entreter uma meia dúzia e seu autor. Porém, desta vez, talvez eu não queira fazer uma lista musical (algo que você pode achar aqui), mas um comentário mais amplo sobre um ano que começou timidamente e terminou com gosto de trabalho bem feito.  Então, podemos considerar que farei uma breve retrospectiva das melhores coisas na música.


Vale começar com Vampire Weekend, banda de rock que em seu terceiro álbum finalmente vingou, ao menos para mim.  Aliás, apesar de ter dito “rock”, algumas vezes em que ouvi The Modern Vampire of the City, de algum jeito estranho a banda conseguia deixar o termo em suspenso. As guitarras que marcavam os hits de trabalhos posteriores (Cousins, A-Punk) foram suprimidas por sintetizadores, teclados, pianos e banjos, mas não é pela falta (ou pouco uso) delas que o VW deixou de produzir um som que possa ser designado nas revistas de música como “rock”, a energia de Diane Young e a densidade de Hudson que o digam.

Então, vem a perspicácia do músico Kieran Hebden, conhecido como Four Tet, que em um ano lançou dois trabalhos impressionantes. O primeiro, em janeiro: 0181 é uma compilação de trabalhos realizados por ele de 1997 à 2001. Uma faixa única, de pouco menos de 40 minutos, que reúne o passeio sonoro por gêneros. É uma espécie de nuvem que vai coletando informações de diferentes tempos e interesses – dentro dos quatro anos que comportam o trabalho de arquivo. Em outubro, veio a segunda pedrada: Beautiful Rewind é um trabalho recente, onde todas faixas são e não são hits. Como Four Tet sabe ser, os samples são quase sempre competentes e a frequência rítmica vai de encontro às pistas de dança, às vezes bem anos 90 (e o início das raves inglesas), a todo tempo bem atual – mas também atemporal, sem que tal adjetivo queira soar prepotente.





O pop realmente parece ter se resolvido, ou ao menos está a caminho disso. Em 2010, a cantora Janelle Monáe já havia acertado em trazer à tona um pop futurista que flertava com a black music do seu e de outros tempos. O álbum de 2013 (The Electric Lady) não teve a mesma inspiração, em especial se compararmos com a primeira parte de The 20/20 Experience, álbum brilhante de Justin Timberlake, que após muito alarde realmente honrou seu tempo de maturação (7 anos). Não seria demais apontá-lo como um passo importantíssimo para a sobrevivência do pop de qualidade. Colocar a primeira parte do trabalho ao lado do brilhantismo de gente como Michael Jackson, Prince, Stevie Wonder não seria exagero - artistas aos quais o próprio Justin faz menções. Das “20 experiências”, considero as 10 primeiras fundamentais para o legado da música pop daqui pra frente, pois certamente virá mais, do próprio e de quem esteja tão comprometido e influenciado como ele.

Outro artista que caminhou pela seara da pop music no últimos anos é o rapper Kanye West. Mas este resolveu produzir experimentações em Yeezus. Já vi gente acusando a faixa Black Skinhead de plágio do clássico Beautiful People, de Marilyn Manson. Pelo que se nota e se supõe de Yeezus, é que KW o fez plenamente consciente, e mais, ele deve estar bem feliz pelas acusações - afinal, pra quem não sacou o disco e as ideias do criador, elas vão bem por aí.**




Entre os brasileiros, confesso que este ano os deixei um pouco de lado. Fato é que pouca coisa “dos melhores brasileiros do ano” dos sites que tem por aí me interessava. No entanto, Passo Torto, Thiago França e São Paulo Underground impressionaram - todos de São Paulo. Passo Torto produziu o álbum Passo Elétrico, aclamado pela crítica. A meu ver, não chega aos pés do homônimo de 2011. SP Underground, trio de jazz avant-garde lançou um grande álbum de música instrumental, provavelmente o melhor da carreira de quatro discos do grupo. Nos últimos dias do ano surgiu a homenagem do saxofonista Thiago França aos 50 anos de lançamento do livro Malagueta,Perus e Bacanaço, clássico da boemia paulista de João Antônio. Assim como a literatura de João Antônio, as músicas de Thiago França me acertam a alma desde Sambanzo, disco do ano passado sobre o qual escrevi um textinho no Saxpax.



Por fim, esboço alguns elogios aos dois melhores trabalhos do ano. P.A. / Hard Love e Nocturnes, de Marina Rosenfeld e William Basinski, respectivamente. São dois filmes de terror em suas maneiras de agir. O primeiro é um terror urbano, que usufrui da paisagem nova iorquina para assassinar (ou distanciar) a canção, e fazer existir o barulho. O segundo é um terror espacial, onde a chave é a repetição da fita, repetição incessante de um mesmo barulho, com a mixagem em sua maneira mais brutal. É aí que a gente conclui que “barulho” é um elogio, e sempre foi, na verdade, embora as pessoas teimem em não acreditar.



*alusão ao título com 10 faixas em cada álbum.
** pesquisando por aí, parece que o artista de Mashups Girl Talk resolveu conceber a piada: http://www.spin.com/articles/girl-talk-kanye-marilyn-manson-mashup/

terça-feira, 12 de novembro de 2013

O outro lado da vida pública

por Laura Tardin


A polêmica não é recente. Desde a Nova Constituição, dois artigos básicos parecem brigar entre si, ou desta forma são interpretados pelos mais desatentos. Um estabelece que é "livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença", o outro diz que "são invioláveis a intimidade, a vida privada, a honra e a imagem das pessoas, assegurado o direito a indenização pelo dano material ou moral decorrente de sua violação". O grifo é meu, por ser justo o detalhe que tornaria possível coordenar esses dois direitos sem que se atropelem.

Nos últimos anos, temos assistido a postagens de vídeos no You Tube de artistas que se expõem, mas ficam ofendidos quando não são eles os autores de sua própria exposição e há processos judiciais movidos contra quem exerce o direito de se expressar da maneira que quiser. No campo de batalha atual, ganha quem reivindica e tem sido fácil para o sujeito que reclama tirar um vídeo do ar ou um livro das prateleiras.

Em 2007, Roberto Carlos exigiu que fossem retirados todos os exemplares do livro Roberto Carlos em Detalhes, atitude que causou estranhamento em alguns de seus fãs. Enquanto corre a questão judicial, o imbróglio ganha a participação de diversos artistas brasileiros. De lá para cá, foi criada a associação Procure Saber, que defende a prévia autorização para as biografias no Brasil.  Artistas como Caetano Veloso, Gilberto Gil e Chico Buarque endossam a iniciativa, entendida por muitos como reacionária, já que favorável à censura prévia, podendo atingir inclusive trabalhos acadêmicos ou de pesquisa, como comenta a nota do site Aventura de Ler.

Quem defende autorização prévia para biografias se diz a favor da intimidade e da preservação da privacidade da pessoa pública. Do outro lado, nomes como Alceu Valença, Fagner, Lobão, o jornalista Ruy Castro (autor de biografias de Nelson Rodrigues e Carmen Miranda), a ex-ministra da Cultura Ana de Hollanda (irmã de Chico Buarque), a escritora Ana Maria Machado, presidente da ABL, e até o ministro Joaquim Barbosa são contra a proibição por entenderem que a história dos artistas faz parte da história cultural do Brasil, podendo e devendo ser compartilhada, posição que independe do questionamento acerca daqueles que tanto fizeram contra a censura do tempo da ditadura. Naturalmente, há ainda quem conclua que quem esconde carrega algo de podre...

Uma artista que opinou no caso é Valesca Popozuda. Não conhece? Valesca é uma das principais intérpretes do também polêmico funk carioca e um dos expoentes do que se conhece como “reação feminina do estilo musical”, representando em letra e atitude a mulher forte e dona de seus desejos e atos. Ex- líder do grupo Gaiola das Popozudas, atualmente em carreira solo, Valesca afirmou em entrevista à revista Quem que “artista está na chuva para se molhar” e que biografia feita com respeito deve ser publicada. Sendo uma das fãs decepcionadas com o Rei Roberto Carlos, vê com naturalidade a curiosidade do fã acerca da vida de um ídolo.

Funkeira posa em ensaio exclusivo, que remete a músicas de artistas do movimento “Procure Saber”



Em que medida uma opinião pode ser relevante para um tema? A opinião de Valesca Popozuda importa? Importa, sim, na medida em que Valesca é uma das personalidades mais ousadas de seu meio - como foram um dia Chico, Caetano e Gil dentro de determinado cenário.  Assim como eles correram riscos num tempo de censura e violação de direitos, Valesca põe a cara à tapa num universo dominado por homens. No meio conhecido por ser tão masculinizado, a intérprete tem letras como “My Pussy é o Poder” e “Quero te Dar”, invertendo a lógica da mulher que tem de cumprir o desejo do homem e colocando o próprio desejo em primeiro plano. Valesca canta a mulher que faz sexo porque quer e quando, onde, como e com quem bem lhe entender.




Em seus 35 anos de vida, Valesca Popozuda provou ser uma mulher corajosa. De origem pobre, infância passada no Irajá, com 18 irmãos e irmãs, saiu de casa aos quatorze anos e começou a trabalhar. Depois de uma entrada gradual no funk, a loira platinada que usa lentes azuis e tem o bumbum no seguro, já fez parte de reality shows, desfilou em escola de samba e ficou de frente com Marília Gabriela.

No seu ensaio da Playboy, mais uma vez foi destacada a sua condição humilde, com todas as fotos realizadas numa favela. A mais famosa é aquela na qual beija uma fotografia do ex-presidente Lula. Seu filho, que nasceu quando tinha 20 anos, é favorável à postura da mãe e a defende dos colegas maldosos. Um dos fatos mais interessantes sobre Valesca é que serviu como referência em um projeto de mestrado aprovado pela Universidade Federal Fluminense. Em “My pussy é poder – A representação feminina através do funk no Rio de Janeiro: Identidade, feminismo e indústria cultural”, a autora Mariana Gomes tinha como objetivo investigar se as letras das cantoras do funk eram feministas ou apenas atendiam a um mercado de demanda erótica. 

Alunos da UFF afirmam que não existe “baixa cultura”, colocando a temática do funk ao lado de, por exemplo, temas que invocam Saramago.  Enquanto a discussão que avalia o funk como cultura não é ultrapassada, me coloco ao lado de quem entende que cultura é a simples expressão da identidade de um povo, seja ela considerada “alta” ou não.

Valesca Popozuda está em constante mutação e atualização. Ultimamente, tornou-se musa de um novo público para o funk, o público gay. Identificados com os temas apimentados e a liberdade para falar do corpo e de sexo, homossexuais fazem parte de uma nova fatia interessada no estilo musical, o que lhe atribui uma nova faceta cultural. Seu alcance vai mais longe quando vira ídolo de um público de classe social mais alta, cujos fãs pagam caro para ver seus shows luxuosos.  Tornando-se ídolo cult para aqueles que defendem o funk como meio inquestionável de cultura, Valesca faz até shows internacionais.





Enquanto artistas da velha e boa guarda nacional tentam preservar sua intimidade, artistas como Valesca se abrem para a exposição pública, sem fazer disto um problema. Em seu Instagram, com 115 mil seguidores, são postadas fotos de sua rotina. Na data de seu aniversário, saiu para almoçar com fãs.  Valesca é filha de seu tempo, uma era de exposição e visão Big Brother em todos os cantos, e aproveita sua ousadia natural, adquirida na sua trajetória de vida, para exercer seu carisma e ficar ainda mais próxima dos fãs. Se Caetano, Gil ou Chico ficam desconfortáveis com o invasivo mercado de exposição, há quem saiba aproveitar para ficar no controle de sua própria imagem - não somente enquanto artista, mas enquanto pessoa de opinião formada e de posição completamente diferente.  



terça-feira, 5 de novembro de 2013

1973 foi um ano bom.

por Thiago Ortman

A morte de Lou Reed na semana passada, me trouxe a oportunidade de reviver um pouco do universo do cantor. Sempre vibrei com qualquer coisa do Velvet Underground, mas meu objeto de pesquisa não foi a banda apadrinhada por Andy Warhol, e sim a carreira solo de Reed, muito reverenciada, que eu pouco conhecia.

Entre reouvir e ouvir o rico material sonoro de Lou Reed nas últimas noites, acabei me fixando no álbum Berlin, certamente a coisa mais bonita - e ao mesmo tempo bem triste - que ouvi recentemente. Não vou aqui avaliar ou criticar a obra, mas ressaltar que este é mais um álbum gerado em 1973, um ano glorioso para a música, ao meu ver.

Tá certo que dos primeiros anos da década de 60, até meados de 70, fica muito óbvio reverenciar a música,.  Boa parte das obras mais brilhantes da música contemporânea saíram desses anos. Mas 73 é um ano particularmente marcante, e numa simples reflexão de botequim vale repensar sua posição diante do tempo e espaço – já partindo para a “mirabolância” reflexiva.

A partir daqui, prepare-se para muitos nomes de discos, de todos os tipos. E vídeos e mais vídeos. Muita referência. Enfim, se você acha que esse papo já está indo muito longe, companheiro, é hora de parar.




Um ano que marca o início de movimentos que irão dominar a segunda metade dos anos 70, como o Punk – Iggy Pop & the Stooges e New York Dolls, por exemplo –, mas que ainda reverbera uma ressaca maravilhosa de quem já produzia em larga escala naquele momento. Um ano de alta do Rock Progressivo, à exemplo de três expoentes do gênero que emplacavam grandes discos: Pink Floyd em Dark Side of the Moon (para muitos o magnum opus do grupo, o que não é o meu caso); Genesis em Selling England by the Pound; e King Crimson em Lark's Tongue in Aspic. Mas não só de mainstream que o progressivo era feito, no mesmo ano bandas menos conhecidas produziam álbuns dignos de atenção: Gong e Magma (abaixo), sonoridades únicas que merecem reconhecimento.





Alguns artistas viviam um dito pós-auge, mas as consequências desses materiais não merecem passar despercebidos: The Who após Who's Next, produziu outra opera-rock (Quadrophenia); Led Zeppelin após seu IV, gerou Houses of the Holy (abaixo) em 73; após a maravilhosa sequência de Black Sabbath, Paranoid, Master of Reality e Vol 4, Ozzy Osbourne chegava a Sabbath Bloody Sabbath. E o próprio Lou Reed se encaixa nesta lista: no ano anterior, Transformer rendou o status de obra-prima, mas Berlin veio na mesma balada.




Mas também houve quem chegava ali ao grande momento. No Reino Unido (For Your Pleasure, de Roxy Music), na Jamaica (Catch a Fire, de Bob Marley), nos Estados Unidos, sul (pronuncia 'lĕh-'nérd 'skin-'nérd) de Lynyrd Skynyrd (abaixo) e norte (Innervisions, de Stevie Wonder). Falando em Stevie, o soul vibrou com Marvin Gaye (Let's get it on) e Al Green (Call Me).





Enquanto David Bowie sedimentava sua carreira com Alladin Sane, Tom Waits nascia para o mundo com Closing Time. Ainda teve John Martyn, John Fahey, Elton John e o "John" do Brasil: João Gilberto lançando uma obra-prima.




Realmente não dá pra esquecer daqui.  Neste ano Secos & Molhados estreava seu homônimo, aquele que viria a ser um dos maiores álbuns da história da nossa música. E Tom Zé nos dava Todos os Olhos.





Bem, Berlin parece que foi a cereja do bolo para um ano particularmente tão bom, que vai envelhecendo e melhorando como vinho. Falando em Lou Reed, não dá pra deixar de falar no seu parceiro de Velvet, John Cale lançando Paris 1919. E o parceiro do John Lennon? Paul produzia Band on the Run junto com Wings. Fela Kuti continuava destruindo na África e Herbie Hancock com Head Hunter. Faust, Alice Cooper, Can, Mahavishnu Orchestra, Banco del Mutuo Soccorso... 


Amigo, depois vou te contar uma coisa sobre 67, aquilo sim foi ano! Ô se foi...


segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Sem saudade da esculhambation

por Doris Dias

Quando escrevo para Aventura de Ler, costumo ocupar (sem grandes méritos, é verdade) a seção leitura, que atualmente está sendo melhor usada na divulgação das obras literárias que foram expostas de forma criativa no pavilhão brasileiro da Feira do Livro de Frankfurt – a maior do gênero no mundo.

Visitei a feira pela primeira vez e tudo que vi me trouxe insights que acho melhor comentar neste blog – mais apropriado para achismos despretensiosos que vou tentar não fazer descartáveis.  Minha autocrítica sobra da leitura de certas colunas semanais que nem sempre são ocupadas por informação relevante, mas por impressões mais ou menos interessáveis – como o texto do Daniel Galera sobre sua chegada ao mesmo evento, publicado no espaço que assina no jornal O Globo às segundas e que você pode ler aqui.

Visão parcial do Pavilhão do Brasil na Feira do Livro de Frankfurt


Se já leu, posso dizer que a frase que mais me interessou foi a que comenta o silêncio assustador de Frankfurt.  Por que assustador?  Por que não estranho ou revelador? Lembro então do que aconteceu a uma amiga psicanalista que ao visitar Tóquio e se hospedar no mesmo hotel do filme Encontros e Desencontros, situado nos andares mais altos de um prédio de 233 metros de altura, abriu uma das janelas à prova de som do quarto e deparou-se com um silêncio incompatível com a cena ofuscante de uma das cidades mais movimentadas do planeta.  Achou que estava tendo uma crise de disritmia, com o ritmo do cérebro ralentando e provocando uma sensação que é das mais aflitivas (só perde para o ataque de pânico).  Pensou que havia algo de errado com ela quando o problema é inteiramente nosso.  Falamos muito e alto demais. Estamos acostumados a provocar barulho. Bastam dois pares de brasileiros num restaurante apinhado de alemães para que nenhum outro som seja ouvido. Não achamos bonito (sabemos que é resultado da nossa generalizada falta de civilidade), mas sentimos a ausência da nossa própria zoeira como se fosse uma pane em um de nossos sentidos.  Justo aquele que deveria ser melhor calibrado para dar espaço ao Outro.

Pois bem, a Feira de Frankfurt é monumental em área e número de participantes, mas seu espaço físico não pode ser mais parecido com uma gigantesca clínica de detox em dia de visita.   Tirando o tamanho, tudo ali é justo: a programação usa apenas duas cores, vermelho e preto, sobre o branco das paredes, pisos e tetos; não há frases ou textos gritantes, apenas uma sinalização monocórdica para a orientação dos visitantes.  Os dois primeiros dias da feira são exclusivos para profissionais do meio editorial e não pude deixar de notar que Aventura de Ler foi automaticamente aceito, via email, como portal de divulgação da leitura, enquanto a Bienal do Livro carioca nos exigiu um contracheque (!!!) como prova da nossa relação com o site, que poderia se inscrever como mídia e esperar ser preterido entre os credenciados.  Em 2011, com o site recém-inaugurado, tivemos que pedir uma forcinha a uma das maiores editoras cariocas para garantir nosso trabalho de divulgação.  Ou seja, além de barulhentos, gostamos de complicar, entupir os procedimentos e forçar a improvisação (ou a sua versão sinistra, a corrupção).  Por isso, há quem ainda nos veja como muito criativos, tendo em vista nossa longa intimidade com matreiras soluções de última hora.

A participação do Brasil nesta feira, até por ser um programa do governo, demonstrou estar perfeitamente alinhada com o tempo atual.  Não foi simples atuação para inglês ou alemão ver, optou-se realmente por mostrar um Brasil de muitas vozes e o eco das manifestações populares fez o coro de fundo, enquanto os discursos de abertura e encerramento, pedra cantada antecipadamente, expunham as nossas mazelas.  O diretor da Feira resumiu: “é um país angustiado consigo mesmo, mas que não deixa de ser criativo”, disse Juegen Boos.

Auditório no Pavilhão do Brasil na Feira do Livro de Frankfurt


Embora Frankfurt fosse o objetivo primeiro da minha viagem, fui ao encontro de Raphaela Leite e Victor Mattina, coleguinhas do AL, que estavam em Berlim, a cidade que todo hipster tem no coração.  Combinamos assistir à Maratona de Berlim, a mais rápida de todas e um dos principais eventos de participação popular da cidade, onde encontramos um carioca que não correu por causa de uma fascite plantar, mal comum aos maratonistas.  Dividido entre o desapontamento e a solidariedade, ele me sai com o seguinte comentário: aqui é bem diferente do Rio, onde ninguém apoia os atletas e quando vai assistir é para gritar coisas como ”Dá-lhe maluco!”.  Um país de gozadores, claro, onde ninguém perde a piada. 

Assim como Frankfurt, Berlim também é bastante silenciosa e não é incomum presenciar cenas como a das duas crianças de colo quietíssimas num aparentemente abandonado carrinho de bebê duplo, estacionado na calçada enquanto a mãe sem pressa prova roupas em uma loja.  Raphita observou: “em Berlim nem os cachorros latem”.

Chegar em voo diurno e poder ver as cercanias das cidades europeias é um dos meus programas favoritos – seja Frankfurt, Berlim (supreendentemente arborizada e verde) ou Lisboa, meu portão de entrada e saída nesta viagem.  Desconfio que Lisboa não esteja no peito de nenhum hipster, mas só a visão do conjunto daqueles telhados (de tão conservados, parecem que foram todos trocados há pouco) derrete qualquer resistência de quem é doente do pé. Considero a capital portuguesa parada obrigatória para todo brasileiro e apoio inteiramente a campanha promovida pelos lisboetas para nos seduzir de vez: Lisboa convida Brasil, que dá dicas ótimas.  Só falta combinar com o pessoal de controle de passaportes para agilizar a entrada no país, onde se perde uma eternidade de um tempo em que todos estão ansiosos ou muito cansados.  Se é verdade que representamos uma parcela significativa do público da TAP, não seria pedir demais que fosse aberta uma fila para os voos brasileiros.  Simpatia e calor humano sempre foi o caminho mais fácil para o coração brasileiro.



Por outro lado, chegar ao Rio em voo diurno é um tapa na cara. Sobrevoar o amontoado de casas desalinhadas, sem nenhum cuidado urbanístico, e chegar pelos fundilhos negros e fedorentos da Baía de Guanabara, não tem clipe do U2 que dê jeito, é uma vergonha que pesa como uma pedra no coração dos cariocas.  A sensação piora no Galeão (o nome de Tom Jobim merece esperar por dias melhores) e chega quase à tragédia na fila dos táxis.  Mais à frente temos o abandono da Ilha, a Linha Vermelha e seu odor característico, e nem as empenas imundas dos prédios do Jardim Botânico escapam.  Ninguém merece.  Não acredito que os estrangeiros ainda possam encontrar encantos nesta visão.  Não faz muito tempo que um ex-presidente de uma companhia francesa com sede no Rio, perguntado sobre o que lhe fazia mais falta do tempo em que residiu no Brasil, respondeu quase melancólico: “esculhambation...”

Infelizmente, não temos mais tempo para ela.  Lamento informar, senhor empresário, mas estamos em confronto com essa tal e queremos mudanças que não serão para seus olhos ou diversão.  Como diz o escritor Paulo Lins no vídeo do nosso site, é uma questão do brasileiro e temos urgência.  Assim como o Brasil que se exibiu em Frankfurt, queremos um país passado a limpo e queremos pra ontem. 

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