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terça-feira, 16 de julho de 2013

Sem contrato, sem conhecimento mútuo e separados por séculos

por Laura Tardin e Guilherme Schneider



Os meios culturais vivem se comunicando.  É um tal de livro inspirado em filme, filme inspirado em música, peça de teatro baseada em livro...  É claro que as músicas também haviam de ter inspiração, direta ou indireta, em obras literárias. A parceria de ideias existe sem contrato ou conhecimento mútuo - e alguns autores estão separados por séculos. Também podem acontecer espontaneamente, sem que as partes compartilhem seus interesses financeiros, sendo apenas uma forma de inspiração ou homenagem. São muitos os exemplos possíveis, divididos entre diversos estilos e origens musicais.  Aqui, citamos mais de 20 exemplos, separados em oito arquivos contendo faixas: um arquivo com músicas de rock e pop; o seguinte, contendo músicas brasileiras; e o terceiro, contendo músicas de rock pesado e metal.



1. Rush - Tom Sawyer  
O título e a narrativa da letra têm a ver com o herói criado por Mark Twain. O ritmo dá à música uma ideia de aventura, assim como ocorre nos três livros.

2. David Bowie - 1984  
Que Bowie é um dos artistas mais ligados em ficção (inclusive a científica), já sabemos.  O cantor inglês tomou base no livro 1984 para compor não somente a música homônima, mas todo o disco Diamond Dogs, lançado em 1974. Bowie queria iniciar uma produção cinematográfica baseada no livro de George Orwell, mas os detentores dos direitos autorais o impediram. Então, Bowie fez um disco cheio de referências na história de Big Brother. 1984 também serviu de referência para outras bandas, como Muse (The Resistance, álbum de 2009) e Incubus (Talk Show On Mute, 2004).

3. Simon and Garfunkel - Mrs. Robinson. 
A canção foi composta pela dupla e fez parte da trilha sonora do filme A Primeira Noite de um Homem, de 1967, baseado no livro homônimo (The Graduate, de Charles Webb, de 1963). A música é dedicada à Senhora Robinson, que trai seu marido com o protagonista, Benjamin Braddock.

4. Velvet Underground - Venus in Furs.
A banda dos anos 60 é cheia de referências às artes.  Além da capa do álbum de 1967 ter sido feita por Andy Warhol, o disco contava com uma canção de título Venus in Furs - assim como A Vênus de Peles, romance de Leopold Von Sacher-Masoch. A atmosfera da música é considerada sexy pelo baixista John Cale e a letra toca em temas do universo sado-masoquista, com botas de couro e açoites.

5. The Beatles - I Am the Walrus. 
Advinda da fase mais lisérgica da banda, I Am the Walrus surge no álbum Magical Mistery Tour, de 1967. As referências da música podem não ser precisas, vindas de sonhos e trechos de construção suspeita, e até os Beatles brincam com as suposições de sua interpretação. John Lennon visita Alice no País dos Espelhos, continuação de Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carroll (1871 e 1865, respectivamente),  no trecho A Morsa e o Carpinteiro.  Na versão da Disney de Alice, há uma cena contendo os personagens. Outro fato curioso é que o rosto de Carroll aparece entre os que ilustram a capa do disco Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band, de 1967.

6. The Libertines - The Narcissist. 
A letra critica as garotas modernas, preocupadas com consumismo e vaidade. “They’re just narcissists/Oh, what’s so great to be Dorian Gray every day?” Dorian Gray é o protagonista de O Retrato de Dorian Gray, escrito por Oscar Wilde em 1890. No livro, o belo protagonista vive por diversas gerações sem nunca envelhecer, já que sua alma e seus erros estão aprisionados dentro de um retrato dele.

7. Ramones - Pet Sematary. 
Stephen King escreve Pet Sematary (O Cemitério Maldito) em 1983, um de seus contos mais assustadores. O livro narra a história de uma família americana que descobre que mora próximo de um cemitério de animais, construído sobre um antigo cemitério indígena.  Ali, é possível trazer à vida animais mortos, o que traz diversos problemas aos atormentados Creeds e seus filhos.  King era fã e amigo dos Ramones quando, em 1989,  é lançado um filme baseado no livro.  Quem compõe a trilha sonora é ninguém menos que a banda nova iorquina. A tríade se fecha quando os Ramones lançam em seu álbum Brain Drain, de 1989, uma canção também chamada Pet Sematary, cuja direção do videoclipe teve uma mãozinha do escritor de terror. Portanto, clipe, música, filme e livro têm tudo a ver.

8. The Police - Don’t Stand so Close to Me.
Sting, cantor e baixista, foi professor antes de fazer parte da banda britânica. A letra conta a história de um professor assediado por jovens alunas, embora Sting negue que a narrativa seja autobiográfica. Ele afirma que é inspirada no livro Lolita, escrito pelo russo Vladimir Nabokov em 1955. Há referências mais diretas à obra em músicas da banda The Veronicas ou na canção de Lana Del Rey.

9. Kate Bush -  Wuthering Heights. 
A cantora tomou base em Morro dos Ventos Uivantes, de Emily Brontë.  Tendo visto o filme e lido o livro ainda aos 18 anos, Bush descobriu que fazia aniversário no mesmo dia de Brontë e compôs sua canção mergulhada na obra. “Heathcliff, It's me, Cathy, I've come home/I'm so cold, let me in-a-your window”, canta Bush. A letra tem a personagem Catherine Earnshaw como narradora.  No livro, Cathy é apaixonada por Heathcliff, mas se afasta dele para se casar com Edgar por motivos financeiros. A canção tem como premissa uma súplica feita de Cathy a Heathcliff para voltar, e a letra é simplesmente Morros Uivantes por inteiro.

10. The Cure - Killing an Arab. 
O Estrangeiro, livro de Albert Camus, inspirou diversas outras obras, entre elas A Revolta dos Dândis, do grupo brasileiro Engenheiros do Havaí. Na canção escrita por Robert Smith, líder da banda The Cure,é descrita uma cena de assassinato na praia, a mesma em que Meursault, personagem de Camus, atira contra um árabe num mesmo cenário (falamos sobre isso na marreta Plataforma, de Michel Houellebecq)







1. Pitty - Admirável Chip Novo. 
A cantora baiana inspirou-se em Admirável Mundo Novo, livro de 1932 do autor Aldous Huxley, para compor um álbum cheio de referências. A canção-título descreve um hipotético futuro no qual as pessoas têm ações pré-condicionadas para que prevaleça a harmonia entre homens e regras sociais - “pense, fale, compre, beba, leia, vote, não se esqueça”. O livro também deu margens a outros títulos nacionais, como Admirável Gado Novo, de Zé Ramalho.

2.  Caetano Veloso é um grande caso da música brasileira que se encaixa aqui. Dentre suas inúmeras faixas, ele homenageia diversos poetas, usando suas obras em trechos ou em letras inteiras. No caso de O Navio Negreiro, canta e interpreta com sua irmã, Maria Bethânia, o poema do também baiano Castro Alves.  A obra, escrita em 1869 pelo poeta de apenas 22 anos, faz parte da terceira parte do Romantismo Brasileiro, citando questões abolicionistas. Já na música Os Argonautas, são lembrados os versos do português Luís de Camões e as palavras de Fernando Pessoa, no famoso trecho “navegar é preciso, viver não é preciso”. Em outro caso, Caetano cita Gregório de Mattos, o Boca do Inferno brasileiro, em sua bela canção Triste Bahia, baseada num poema homônimo. 

3. Djavan - Alegre Menina. 
A canção é interpretada por Djavan, mas foi composta por Dorival Caymmi. Serviu como trilha sonora da novela Tieta, baseada em Tieta do Agreste, obra de Jorge Amado. Recentemente entrou também na trilha da minissérie Gabriela, inspirada na também obra de Amado, de 1958, Gabriela, Cravo e Canela.

4.  Legião Urbana - Monte Castelo. 
A canção de Renato Russo é um diálogo com o texto do apóstolo Paulo, contido na Bíblia, e com o Soneto 11 de Luís de Camões (“o amor é fogo que arde sem se ver...”).  O título é uma referência à batalha de Monte Castelo, realizada na Itália durante a Segunda Guerra Mundial, onde os pracinhas, soldados da Força Expedicionária Brasileira - FEB , foram, em sua maioria, dizimados.

5. - Lobão - A Hora da Estrela. 
A música, lançada no disco Nostalgia da Modernidade, de 1995, leva o mesmo título do último livro publicado pela escritora Clarice Lispector, de 1977.





1. Iron Maiden. 
A banda britânica simplesmente vale pelo conjunto da obra, privilegiando especialmente escritores e obras inglesas. Murders of the Rue Morgue faz menção ao livro Os Assassinatos da Rua Morgue, de Edgar Allan Poe. The Sign of the Cross se relaciona com O Nome da Rosa, de Umberto Eco.  Brave New World, álbum de retorno de Bruce Dickinson à banda, fala de O Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley. Lord of the Flies homenageia O Senhor das Moscas, de William Golding. Existem outras dezenas de referências, que vão de filmes até a Rainha da Inglaterra.

2. Metallica. 
A banda homenageia o autor H.P. Lovecraft em faixas como The Call of Ktulu, The Thing that Should Not Be e All Nightmare Long. Outras bandas de metal, tais como Iron Maiden e Black Sabbath, também homenageiam o autor americano.

3.Nirvana - Scentless Apprentice. 
A letra é baseada num dos livros favoritos do cantor Kurt Cobain, O Perfume, de Patrick Süskind, publicado em 1985 (veja a marreta deste livro). A canção é a única do álbum In Utero, lançado em 1993, a ser escrita por todos os componentes da banda, e não somente por Kurt. A obra literária também teve influência em outras músicas, como Du Riechst so Gut, da banda alemã Rammstein - título que quer dizer, justamente, “você cheira tão bem”.

4. Guns n’Roses - Catcher in the Rye. 
Lançado na nova fase do Guns, a música, com o mesmo título de O Apanhador no Campo de Centeio, de J.D. Salinger, cria uma ponte entre Mark Chapman e o livro. O assassino de John Lennon portava O Apanhador ao cometer o crime (veja a marreta sobre o livro)
5. Blind Guardian. 
Praticamente,  a banda faz homenagem a J.R.R. Tolkien e sua obra. Em 1998, é lançado o álbum Nightfall in Middle Earth, baseado inteiramente no livro O Silmarillion. No disco Somewhere Far Beyond, cujo título foi inspirado na série The Dark Tower, de Stephen King, são lançadas duas partes de The Bard's Song - In the Forest ou The Hobbit, também baseadas em Tolkien. Outras bandas fazem referências a mundos fantásticos, como Rhapsody.
6. Achilles, Agony And Ecstasy In Eight Parts - Manowar. 
A maior música da banda, com nada menos de 28 minutos, conta, em 8 atos, a história da ira de Aquiles, texto atribuído a Homero em Ilíada. Também pensando em Homero, a banda Symphony X lançou em 2002 o álbum The Odyssey, cuja faixa título tem mais de 24 minutos.
7.  Led Zeppelin. 
A banda conta com algumas discretas, mas importantes citações ao autor J.R.R. Tolkien. A letra de Ramble On, música do cd II, de 1969, cita “Was in the darkest depths of Mordor, I met a girl so fair/ But Gollum, and the evil one crept up and slipped away with her”. Alguns comparam a letra de Battle of Evermore com o livro O Retorno do Rei, último livro da trilogia de O Senhor dos Anéis, a partir de seus cenários e personagens épicos. Também há quem diga que Misty Mountain Hop contém referências a O Hobbit.

8. Pink Floyd - Animals. 
É a partir do lançamento deste álbum que a banda inglesa passa a usar um porco gigantesco em seus shows. Assim como outros álbuns, Animals, de 1977, lança diversos conceitos que servem para questionar. Baseado na obra de George Orwell, A Revolução dos Bichos, o álbum do Floyd critica o capitalismo praticado na Inglaterra dos anos 70. O porco é uma referência aos principais personagens do livro de 1945,e assim aparecem nos títulos das músicas: Pigs on the Wing, Dogs, Pigs (Three Different Ones), Sheep, Pings on the Wing (Part II). As referências da histórica banda não pararam, é claro. Dizem por aí que o filme O Mágico de Oz, baseado no livro com o mesmo título de L. Frank Baum, fica perfeitamente sincronizado se exibido junto com o álbum The Dark Side of the Moon, de 1973.

                            

domingo, 30 de junho de 2013

Folk : sempre renovando

por Thiago Ortman

Durante a excelente entrevista com Rubel, entre os vários assuntos conversados sobre sua iniciante carreira musical, um me chamou atenção. Rubel citou Bon Iver como uma das principais referências musicais para a composição do seu álbum Pearl. E argumentou que o músico faria algo que só ele sabia fazer atualmente. É possível que sim, mas a partir dessa constatação parei para pensar como a música folk americana vem evoluindo nos últimos anos.

O folk, muitas vezes, é apontado como um estilo musical estagnado no tempo, devido à maneira simples – a princípio - de reproduzí-lo: com voz e violão. Porém, uma série de artistas que têm um conhecimento absoluto da música americana, se apropriaram da sonoridade para repensá-la, e certamente Bon Iver está entre eles.

Sufjan Stevens é um bom começo para ser comentado. O musico de Detroit (Michigan) surgiu para a cena no início da década passada, empunhando seu bom violão, mas não se se limitou a realizar somente voz e violão. Sua sonoridade está associada a um som mais sinfônico, ou o que é chamado de chamber pop (pop de câmara). Como se não fosse suficiente, no seu último álbum (The Age of Adz, de 2010), Sufjan foi ainda mais longe. Produziu um álbum que atravessa do folk ao pop eletrônico com uma aparelhagem de sintetizadores, samples e até mesmo a utilização do dispositivo do autotunes, com uma qualidade que poucos artistas conseguiram até então.


Outra citação de Rubel foi a banda Fleet Foxes. Através do folk e de uma relação muito próxima com a música indie, o grupo de Seattle (Washington) recorre a elementos principalmente de  produção sessentista. Com canções repletas de coros, o Fleet Foxes cria uma atmosfera pastoral que em diversos momentos se aproxima do que o Beach Boys criaram um dia (em 1960 e poucos) – embora não valha nenhuma comparação, os sons vão por caminhos bem distintos, no final das contas.


De maneira mais extrema, Joanna Newson parece a artista folk que melhor se utiliza das concepções “rústicas” do estilo para criar um som que poderia muito bem ultrapassar o selo de contemporaneidade. A harpista de Nevada City (na California) é dona de faixas longuíssimas e álbuns épicos como Have One on Me (2010), que compõe três discos. A voz de Joanna pode ser considerada única dentro do universo musical, capaz de criar as mais diversas variações vocais.  Além atingir o agudo como poucos, a harpista traz elementos da música erudita e flerta com o jazz para gerar seu folk barroco – com muita harpa, instrumentos de sopro e piano. E quem disse que o “barroco” não poderia andar lado a lado com o contemporâneo?


O guitarrista Kurt Vile acaba de lançar Wakin on a Pretty Daze, álbum que começa com a faixa-quase-título Wakin on a Pretty Day, que faz jus às belas canções de Neil Young, indicando um possível álbum que siga as fieis “tradições” do folk rock. Nada disso, com seu estilão Lou Reed de cantar, duas faixas mais tarde, Kurt já está adicionando batidas eletrônicas e resignificando tudo que poderia ser chamado de folk pelos ordotoxos. Mas quem se importa? É um baita disco!


Entre as bandas, existem muitas. As mais famosas: Wilco, Califone e Grizzly Bear, grupo que tocou no Brasil em fevereiro. Mas, assim como começou, o texto pode ser muito bem concluído com Bon Iver, que ao contrário de Rubel, está longe de ser o meu artista (e agora, banda) favorito no estilo – sou mais todos os artistas citados acima. Porém, Bon Iver busca uma sonoridade à parte, que tem como marca andamentos lentos (que um dia foram ainda mais lentos, em seu primeiro álbum), um vocal bem marcado por falsetes, trazendo à tona alguns artifícios dos anos 80 para sua produção. 


O fato de Bon Iver ter deixado de ser somente Justin Vernon (o vocalista e mentor) e ter se tornado um grupo foi essencial para ganhar uma roupagem mais energética, retirando a sensação melancólica do debut For Emma, Forever Ago (2007). Porém, Justin Vernon parece ter dado um tempo sem hora pra voltar na banda, mas ainda tem gente querendo vê-lo por aqui:
http://www.queremos.com.br/boniver


sexta-feira, 14 de junho de 2013

Obituário: The Sims Social

por Guilherme Schneider

Essa semana, os fãs de videogame do mundo todo pararam para assistir a E3 - a maior feira sobre jogos eletrônicos, que terminou na última quinta-feira em Los Angeles, nos Estados Unidos. Se esse ano os destaques foram os novos aparelhos da Sony e Microsoft (Playstation 4 e X Box One, respectivamente), anunciados oito anos depois da geração de consoles atual, nos anos anteriores os destaques foram apenas os jogos. Em meio a tantas celebrações de novos títulos, esse 14 de junho de 2013 ficará marcado pela "morte" de alguns jogos: The Sims Social, SimCity Social e Pet Society deixam de existir nessa sexta-feira. O caso de maior impacto é o de The Sims Social, destaque na E3 de 2011 e o título mais famoso dentre os três, com quase 9 milhões e meio de fãs no Facebook.

A série "The Sims" é um dos maiores fenômenos da indústria dos videogames. Trata-se de um simulador de vidas. Uma inventiva e repaginada maneira de "brincar de casinha", em que além de construir sua própria casa você determina o que o personagem faz em seu dia-a-dia. Isso inclui ações como namorar, jogar videogame e até mesmo usar uma privada. Desde 2000, é a franquia que mais vendeu jogos para computadores (mais de 150 milhões de cópias). Veio então a aposta no Facebook como plataforma de jogos exclusivos. Não há como negar que a rede de Mark Zuckerberg funciona hoje também como um console, e a resposta não foi menos que um imediato sucesso.

Lançado em 9 de agosto de 2011, o game termina antes de completar três anos de existência. O motivo alegado pela empresa Electronic Arts (dona da Playfish, desenvolvedora de The Sims Social) é uma mudança "estratégica" no mercado de jogos online. A verdade é que no auge do sucesso o jogo bateu a impressionante marca de 10 milhões de usuários ativos diariamente. Gradativamente esse número caiu, até chegar a menos de um milhão de jogadores diários na época do anúncio de sua extinção. Se esse número justifica ou não os investimentos é difícil saber, mas o que se sabe é que a Electronic Arts foi eleita pelo segundo ano consecutivo como a pior empresa americana por uma associação de consumidores.
      
Houve revolta por partes de usuários do jogo, em especial dos que gastaram dinheiro de verdade para decorar suas casas virtuais. Um simples item virtual poderia custar dezenas (e até uma centena) de reais. Mas o principal bem gasto sem dúvida foi o tempo, sempre incalculável. Confesso que passei incontáveis horas jogando The Sims Social. A proposta "social" do jogo propõe uma integração maior entre os usuários dentro da principal rede social global.
      
A proposta de interagir de verdade com pessoas a partir de um jogo pode soar estranha, mas presenciei isso de fato. A ponto de ser acordado com a mensagem desolada de uma amiga, que mesmo em viagem ao exterior lembrou-se de seus vizinhos virtuais. Graças ao empurrãozinho do Sims vi o "social" acontecer de fato. Fosse debatendo as novas missões semanais num almoço de domingo em família, adicionando novas pessoas para jogar, ou até mesmo retomando contato com quem não conversava mais. Tudo pela implacável política de pedidos de itens e qualquer ajuda virtual. Sim, a dinâmica de um jogo social é de certa forma a de perturbar os contatos pedindo de tudo.
     
Para alguns, essa notícia pode soar como um motivo de alívio. Afinal, os jogadores compulsivos ganhariam imediatamente horas extras, dentro na diária procrastinação gerada pela jogatina online. E seus amigos jogadores (ou mesmo os não-jogadores), teriam suas linhas do tempo menos poluídas, além de não receberem mais os famigerados pedidos de "ajuda". As insistentes notificações de pedidos sempre foram importunas, mas parte fundamental da dinâmica social proposta pelo jogo - e parte da brincadeira, claro.
      
Que fique claro: o jogo The Sims não acabará - apenas essa versão para Facebook. A tristeza é ter percebido essa edição como a mais completa possível para um jogo que se propõe a simular vidas. Afinal, com a interatividade possibilitada na maior rede social essa simulação de vidas fica sim mais completa, visitando os avatares de contatos reais e não apenas interagindo com a máquina.
    
Ao contrário de qualquer outro tipo de jogo de videogame esse jogos em flash não terão volta, tampouco poderão ser acessados de qualquer maneira. Para ter uma ideia do impacto desse assunto, mesmo os jogos criados para os consoles mais antigos (como o Atari por exemplo) podem até hoje ser emulados em outras plataformas. Se você quiser jogar River Raid, clássico de Atari lançado em 1982, é possível encontrar algum site que mate suas saudades. Já se preferir uma partida casual de Sonic (o original, para Master System), de 1991, também é possível localizar algum link rapidamente - sem precisar encontrar aquele cartucho empoeirado no fundo de algum armário (lembrando que esta prática é considerada ilegal se você não possui o cartucho original do jogo - e não a endossamos). The Sims Social não. Afinal, é um jogo essencialmente online, em que a dinâmica necessita da interação mediada pela empresa desenvolvedora bem como as constantes atualizações de temas.


     
Aquela "vida perfeita" oferecida pelo colorido jogo acabou. Os jogadores provavelmente lembrarão com carinho de missões semanais, como a semana de Halloween ou Natal, ou aquela medieval que premiava o jogador com um dragão no quintal. Quem jogou até o último dia, perdeu de uma só vez uma cobertura com heliporto, uma casa na praia, uma casa em nevadas montanhas, um castelo medieval, uma mansão mal-assombrada, além da residência principal, um patrimônio construído em muito tempo e até o dinheiro real já citado. Se "Construa uma casa, construa um relacionamento, construa uma vida" foi o lema do jogo, agora poderá ser também um lema mais presente na vida offline. Que descanse(mos) em paz.


Link complementares: (em inglês)


Trailer de The Sims Social na E3 de 2011: http://www.youtube.com/watch?v=nMCcYa_gLZs

sábado, 13 de abril de 2013

A Morte de Barbarella

Barbarella & Zhora


Sou daquele grupo de pessoas que revê e revê filmes que gosta ou mesmo que acha só interessantes. E não faço isso apenas por não ter mais nada por fazer – gosto mesmo de retornar a filmes conhecidos, como se reencontrasse velhos amigos.  Quem não pertence ao nosso grupo me pergunta qual é a graça em ver filmes que você já viu, já sabe que surpresas reservam, já sabe qual vai ser o final. Além do fato de conseguir me entusiasmar em ver um filme que já conheço – a ponto de muitos não acreditarem já tê-lo visto antes – há outra razão para fazer isto: conseguir captar algo que tinha passado despercebido, seja por falta de atenção ou por eu ter tido outras vivências e adquirido novos conhecimentos desde a última vez que assisti a obra e assim entender coisas que antes não estava preparado para assimilar.

Vivi um bom exemplo desta situação ao ir à primeira sessão do Cineclube Sci-Fi, uma mostra de filmes consagrados de ficção científica, com direito a palestras sobre as obras apresentadas, organizada pelo Conselho Jedi do Rio de Janeiro e realizada no Planetário da Gávea, no Rio. Aliás, uma excelente e rara iniciativa para reunir os mais variados fãs de FC do Grande Rio para troca de ideias, saber das novidades, estabelecer conexões não imaginadas e conhecer gente com os mesmo gostos.

O primeiro filme que o cineclube passou foi um clássico indiscutível do gênero lançado em 1982: “Blade Runner: o Caçador de Androides”, de Ridley Scott, que apresentou para o público em geral a obra do escritor Phillip K. Dick (o filme é baseado em um de seus livros). O impacto de Blade Runner foi tão grande que chamou a atenção de Hollywood para o autor. Vários outros textos dele acabaram sendo adaptados para o cinema – O Vingador do Futuro, Minority Report, O Homem Duplo, Os Agentes do Destino, entre outros.

Para quem ainda não conhece, num resumo que não estraga surpresas, Blade Runner narra a busca de Deckard, um caçador de androides, na cidade de Los Angeles no ano de 2019 (na época um futuro longínquo) por um grupo de replicantes – androides que são visualmente idênticos a humanos, mas muito mais fortes e resistentes, e que são proibidos de circular em nosso planeta, sendo usados para serviços em colônias extraterrestres. Já devo tê-lo visto umas quatro vezes – tenho seu DVD em minha coleção. Acreditava que, ao assisti-lo, teria uma grande diversão pela frente, mas que aquela altura não teria grandes surpresas. Até que vi a sequência em que o caçador, vivido pelo Harrison Ford, persegue e mata o primeiro de seus alvos replicantes: Zhora, que trabalhava como dançarina exótica em um bar.



Barbarella
A indumentária da replicante, a falta de pudor de Zhora diante de Deckard, o cenário em que ela se encontrava no momento exato de sua morte – uma loja de roupas com manequins trajando vestes em estilo kitsch que emulava um conceito de futurismo da década anterior – , tudo isso me remeteu a um filme que tinha acabado de rever para escrever outro texto para o site Aventura de Ler. Um filme de 1968 que, de certa forma, havia iniciado todo este conceito que dominara a década de 70: Barbarella, de Roger Vardin.

Não sei se foi intencional ou não, mas essa sequência de Blade Runner serve perfeitamente como alegoria do fim da hegemonia de um estilo, uma moda que surgira na ficção científica ainda no século XIX com a princesa marciana Dejah Thoris, criada por Edgar Rice Burroughs (o criador de Tarzan) e que aparece em sua série de romances que se passa no planeta vermelho. Dejah Thoris é a mãe de todas as mocinhas da FC, o estereótipo da donzela em apuros, sempre perseguida por monstros alienígenas e procurando a salvação nos braços do herói da trama. Barbarella muda esta lógica, onde a mocinha deixa apenas de ser a donzela em perigo e passa a ser o personagem principal da trama, tendo de se virar sozinha para sair de seus problemas, mas não deixa de ser o ápice deste estilo de personagem, que sempre ressalta seus dotes físicos para heróis, vilões e espectadores.

Dejah Toris (arte de Paul Renauld)
Blade Runner inaugura um novo estilo: o cyberpunk, caracterizado pela mescla de alto nível de tecnologia atingida por uma sociedade que também possui alto nível de degradação social. As cores e a utopia do futuro imaginado na década anterior são substituídas por ambientes nublados, poluídos e sombrios. A alegria e sedução de antes são criticadas como formas de pensar vazias e alienadas. Assim passou a ser boa parte da FC no cinema, em que surgiram as franquias de Alien, Exterminador do Futuro, Mad Max e Matrix.  

A sequência da morte de Zhora parecia afirmar que não havia mais espaço para Barbarellas, ao menos não no cinema. O fracasso da primeira versão cinematográfica do primeiro livro em que Dejah Thoris aparece – "John Carter: entre Dois Mundos", de Andrew Stanton, lançado em 2012 – reforça esta ideia. E assim se passaram 30 anos desde que Blade Runner, de certa forma, decretou a morte de Barbarella, surgida 20 anos antes. Já está mais do que na hora de aparecer alguém que dê um tiro nas costas de Deckard e nos apresente algo novo. 


“Barbarella, amor livre e feminismo”, artigo para o Aventura de Ler: 

Resenha para o Aventura de Ler sobre o primeiro livro da série do planeta Marte, de Edgar Rice Burroughs, lançado pela editora Aleph: http://www.aventuradeler.com.br/536/9

Site do Conselho Jedi Rio de Janeiro:  http://www.jedirio.com.br/


sexta-feira, 5 de abril de 2013

Conheci o Sérgio Sampaio em um Hospício em Engenho de Dentro




por Thiago Ortman


Antes de começar qualquer história: não, eu não estou louco, fui parar no hospício e por isso vi o, já falecido, Sérgio Sampaio por lá. Mas a minha história realmente começa no hospício de Engenho de Dentro. Estive lá na semana passada para acompanhar a atividade cultural dos amigos do Norte Comum, que agora tem uma ala disponível no Hotel da Loucura, espaço dentro do próprio hospício (Nise da Silveira).


Bem vindos ao hotel da loucura.



O evento foi belíssimo, com uma série de apresentações, shows (entre eles da banda de rock instrumental recifense Joseph Tourton), declamações de poesias, e tudo mais, com a presença dos artistas do hospício (poetas, atores...) tendo oportunidade de apresentar seus trabalhos para uma galera que nunca tinha pisado lá – não era o meu caso, mas ainda não conhecia bem o trabalho deles, além das belas poesias, frases e pinturas no Hotel da Loucura.





Já estava escuro nos jardins do Nise quando um rapaz chamado Arthus surgiu com seu violão, disse que havia treinado o repertório de (um tal de) Sérgio Sampaio, mas nada estava muito ensaiado e muita “coisa” iria surgir na hora. 

Começou seu show de quase uma hora, só com versões do músico até então desconhecido para mim. Então, ali mesmo, descobri que era o compositor de “Eu quero botar meu bloco na rua” - essa eu conheço! - que toca em todas as festas de música brasileira da Lapa. As canções falavam de amor, loucura, poesia, e que lugar de samba enredo é no asfalto. E todos ao meu redor cantavam, eu nada.







A ignorância era realmente minha. Na mesma noite cheguei em casa e comecei a pesquisa... o mais maldito dos artistas da MPB (como logo descobri) merecia mais do que uma mera pesquisa de google/wikipedia. 

Baixei o álbum “Tem que acontecer”, um dos seus dois discos produzidos nos anos 70. De cara, um sambinha, “Até outro dia”... Em pleno 76, um samba como aquele: com aspirações em Nelson Cavaquinho. Sua singela beleza já me conquistou, e olha que é complicado alguém me conquistar na primeira faixa. Em seguida, a música que deu sentido a tudo, “Que loucura”, a cantiga falava que as loucuras de amor levaram o cantor ao hospício em Engenho de Dentro, uma pérola! O álbum ainda tinha blues acústico (“Cabras Pastando”); a brasilidade de Os Novos Baianos (“O que pintá, pintou”) ou o sambinha a lá Tom Zé (“Velho Bandido”) presentes... mas ao mesmo tempo não soando menos caricatural que os próprios. Ainda vale citar a dobradinha “O teto da minha casa” e “Ninguém vive por mim”, e suas assimilações com a viola caipira e a vibração de Marcos Valle naqueles mesmos tempos, respectivamente. É uma obra-prima de um dos anos mais ricos da música brasileira*.







Fui para o próximo álbum: “Eu quero é botar meu bloco na rua” (1973). A inspiração não era a mesma, com um teor de pretensão setentista em sua produção, indo por um caminho semelhante a uma série de outros álbuns da época. Ainda sim, tinha músicas que em pouco tempo de Sergio Sampaio já considero entre suas melhores: “Filme de Terror”, “Não tenha medo, não!”, “Dona Maria de Lourdes”, e a já conhecida faixa-título.







Eu posso ser o último. Mas conhecer Sergio Sampaio no hospício que o “acolheu após enlouquecer de amor” gerou em mim uma crônica gratificante. E se eu não sou o último, corram atrás! Se nada disso serve de consolo, o cara da direita era amigo, ídolo e ainda formou uma banda-de-um-LP com ele (o qual ainda não ouvi)...






...Enquanto isso, “os automóveis estão invadindo a simples cidade”.







*76 foi ano de Chico Buarque e seu “Meus Caros Amigos”, enquanto Tom Zé estava “Estudando o Samba”; as “Maravilhas Contemporâneas” de Luiz Melodia nasciam; “Imyra, Tayra; Ipy”, Taiguara; Cartola e seu homônimo; “Domingo Menino Dominguinhos” do próprio; As “Brigas de Galos” de João Bosco; os “Geraes” de Bituca; e a “Alucinação” de Belchior... ufa. Tudo foi em 76.

sábado, 30 de março de 2013

Diana Vreeland- A Imperatriz da Moda

Diana Dalziel nasceu em Paris em 1903. Em 1924, se casou com o banqueiro Thomas Vreeland, mudando logo depois da lua de mel para Nova York e, em seguida, para  Londres, onde conheceu seu amigo de toda a vida,  o fotógrafo Cecil Beaton.

Em 1935, voltou para Nova York com a família e não demorou muito a começar sua carreira no mundo da moda.  No ano seguinte,  o editor chefe da revista 
Harper´s Bazaar, impressionado com o estilo de Diana, lhe ofereceu uma coluna.   Até a sua demissão da revista, a coluna Why Don´t you?" dava dicas e sugestões de comportamento e estilo, inspirando seus leitores com sua percepção de mundo, até mesmo aqueles que não tinham dinheiro para comprar roupas. 

Na Harper's Bazaar por quase 30 anos, Diana sempre fugiu das convenções, procurava o diferente, o imperfeito, o misterioso.  Descobriu belezas como a da atriz Lauren Bacall, a modelo Twiggy e a alemã Verushka.  Dava declarações polêmicas,  como "o biquini é a coisa mais importante desde a bomba atômica" e já percebia que o mundo seria globalizado.


Como editora de moda, pensou fora da caixa e criou o conceito de editoriais de moda como conhecemos hoje: a idéia de contar uma história através da roupas, viajar para outros países e retratar diferentes culturas foi apenas um dos legados de Vreeland. Ela acreditava que viagens eram necessárias para o aprendizado e ampliação do olhar.


Ia sempre à Paris comprar roupas, principalmente Chanel, que considerava a essência da elegância feminina. Entendia a importância da indumentária em diferentes ocasiões e do impacto que as roupas causavam aos olhos dos que observavam a transformação do mundo.  Durante toda a campanha de John Kennedy à presidência dos EUA, foi ela quem aconselhou Jackie que, graças às suas dicas, tornou-se o ícone de estilo reconhecido até hoje. Madame Vreeland estava anos luz à frente de seu tempo.


Sem possuir formação "formal", dizia para quem quisesse ouvir que possuía o que considerava a melhor das escolas - milhas viajadas, literatura e curiosidade. Apesar de seu sucesso à frente da Harper´s Bazaar, ela ganhava muito pouco, até que se tornou editora chefe da Vogue, em 1962.


Vreeland amava os anos 60 e abraçou a contracultura americana que começava a aparecer. Eram anos que celebravam as diferenças e Diane acreditava que isso era maravilhoso.  A Imperatriz da moda reinou  por quase nove anos na revista e transformou o universo da moda, criou gírias e ficou famosa por suas frases e humor ferino. Com certeza, nos dias de hoje ela, seria um sucesso no twitter e a teria o maior número de seguidores no Instagram.


Depois de revolucionar as páginas da Vogue e também deixar a revista com algumas dívidas devido aos seus ensaios super conceituais, foi convidada para ser consultora do Instituto de Moda do MET, o Metropolitan Museum of Art de Nova York.  Outra revolução estava por vir.


Seu conhecimento e teatralidade mudaram mais uma vez o universo da moda.  Tudo que conhecemos de exposições de moda começou lá nos anos 70, com Diana Vreeland. Suas mostras trouxeram milhares de pessoas ao museu, que até então ficava às moscas.  Desde então, outras instituições começaram a reconhecer a moda como arte.


Fica difícil dizer o que se passava na cabeça da imperatriz na moda, numa época onde não existia internet, nem o mercado lotado de jovens querendo trabalhar com moda. O instinto para o novo e o moderno não é algo que se aprende, mas que pode ser cultivado, se bem orientado por quem nasce com esse dom.  Diana Vreeland foi uma dessas pessoas.


Madame Vreeland vem sendo celebrada nos últimos anos.  Em 2012, os diretores Bent- Jorgen Perlmutt e Lisa Immordino Vreeland (sim, a moça é esposa do neto de Diane) fizeram um documentário ainda sem data de lançamento no Brasil, chamado “Diana Vreeland: The Eye Has To Travel”. O documentário tem entrevistas com familiares, estilistas, fotógrafos e modelos. O resultado é um belo olhar na vida dessa excêntrica mulher que insistiu até o fim de sua vida que a imperfeição era a parte mais interessante da beleza.







Madame Vreeland era muito conhecida por suas frases, deixo aqui uma seleção pessoal de suas citações.


1- Onde estaria a moda sem a literatura?


2- Estilo -  todos que têm compartilham uma coisa: originalidade

3- Você tem que ter estilo. Ele ajuda você a descer as escadas; ajuda você a se levantar de manhã; é um modo de vida - sem ele, você não é ninguém. Não estou falando sobre um monte de roupas.

5- A  única elegância real está na mente, se você tem isso, o resto realmente vem disso.

6- Não se trata do vestido que você usa, mas da vida que leva no vestido.

7- Você não tem que nascer bonita para ser selvagemente atraente.

8- Há apenas uma vida muito boa e essa é a vida que você sabe que quer e que faz por si mesma.

9 -Não olhe para trás.  Apenas vá em frente.  Dê idéias.  Sob cada ideia há uma nova ideia esperando para nascer. 

domingo, 17 de março de 2013

Mais um pouco de Pop



por Thiago Ortman

Encerro o texto que está na seção lançamentos do site, sobre o novo álbum do Justin Timberlake, com uma provocação.  O lançamento me fez pensar quem são os artistas mais interessantes do pop na atualidade. Pra mim, fica claro que não haverá alguém como Michael Jackson.  Ao mesmo tempo, artistas dos anos 80 (fase áurea da música pop) já não conseguem a mesma repercussão musical: Prince se tornou anacrônico e Madonna, apesar de tentar acompanhar os tempos, parece ter perdido o fôlego no caminho – para ficar somente em dois ícones daquela década.

O já citado Timberlake não me parecia tão interessante em suas duas primeiras obras, mas The 20/20 Experience é um álbum que o coloca em definitivo entre os artistas que merecem a devida atenção no Pop. Porém, pensando estritamente na sonoridade e evolução musical, existem pelo menos três artistas mais talentosos que o ex-cantor de boy band.

A primeira a ser comentada, é a jovem Janelle Monáe. Embora ela tenha lançado apenas um álbum (The ArchAndroid, de 2010), digamos que ela mereceu o destaque de quem vos escreve. Até por ser a única artista (entre os que vou citar) de quem assisti a um show. Após perder, por um estúpido atraso, a abertura que ela fez no péssimo show da Amy Winehouse, no início de 2011, consegui me redimir no mesmo ano, no Rock in Rio 4!  Na “noite soul” do festival, Janelle fez um show vibrante, extremamente performático e sem firulas; ainda retornou ao palco junto com o headliner Stevie Wonder – este é rei absoluto, acima de estilos musicais. A ex-backing vocal do Outkast produziu um álbum que pode ser considerado como uma experiência musical em que se aproxima de seus grandes ídolos (Stevie, Grace Jones, Lauryn Hill). Em alguns momentos as referências são evidentes, mas nada soa como uma réplica.



Em alguns shows de 2012, Janelle apresentou duas novas canções (Electric Lady e  Dorothy Dandridge Eyes), mas ainda não há notícia sobre um novo álbum. Independente disso, já é possível considerá-la um dos maiores expoentes da música negra pop na atualidade.



A segunda a ser citada é M.I.A.. Além da fortíssima influência da electropop, a cantora britânica investiu em pesquisar a música popular de países como o Brasil e Índia (país próximo do Sri Lanka, de onde vieram seus pais). Em seus três álbum, M.I.A. definiu um estilo único de Electropop, calcado nas influências do funk carioca e da world music (me perdoem a ignorância de não saber especificar o “estilo” de música indiana que a cantora tem como referência). Muito da potência do pop de M.I.A. está expresso no teor político de suas músicas e atos. Para ficar no âmbito das fofocas da música pop, em 2010 a cantora entrou numa polêmica com Lady Gaga, ao dizer que a artista pop além de copiá-la musicalmente, era o último suspiro da industria fonográfica: "Lady Gaga tem um bom time por trás, mas ela é o último suspiro da indústria em tentar ser necessária. A respeito, pois mantém milhares de pessoas trabalhando, mas eu acredito no 'faça-você-mesma". Mas os tempos são outros e a paz parece ter sido refeita após Lady Gaga ter visitado Julian Assange (fundador do WikiLeaks) em seu exílio na embaixada do Equador, a convite de M.I.A.



Voltando à música, ao contrário de Janelle, o novo álbum da cantora britânica, Matangi, está próximo de sair: o lançamento está previsto para o início de abril.

E não podemos esquecer de Kanye West. O rapper é, para mim, o maior artista pop da atualidade. Evidentemente haverá controvérsias.  Porém, em quase 10 anos e 5 álbuns, o cantor provou uma versatilidade e capacidade de experimentar e criar samples sem igual. Além disso, seus projetos ambiciosos, apesar de não terem tanta repercussão no Brasil, merecem ser comentados. Um exemplo é o filme/opera de seu último álbum, My Beautiful Dark Twisted Fantasy (2010), escrito, dirigido e atuado pelo próprio.

No mais, o polivalente rapper ainda é conhecido por ter produzido uma série de músicas do pessoal top do rap: Nas, Talib Kweli, Mos Def, até mesmo Jay-Z, todos em algum momento tiveram canções produzidas por Kanye. Mesmo em sua obra irregular, o álbum 808s & Heartbreak (2008) vale ser ouvido.  Afinal, não é todo dia que alguém mistura synchpop (tão reconhecido nos anos 80) com rap, é uma experimentação no mínimo válida. Mas fica como sugestão o seu último álbum: My Beautiful Dark Twisted Fantasy é daqueles trabalhos que ultrapassa a fronteira de estilo musical.