Lunáticos Ouvintes e Leitores, está entrando no ar mais um ALCast, que vai abordar uma norma do Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente que está causando grande reboliço. Vinicius Marins conversa com Vitor Azambuja sobre o assunto.
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domingo, 3 de agosto de 2014
AlCast 012: Norma do CONANDA
Lunáticos Ouvintes e Leitores, está entrando no ar mais um ALCast, que vai abordar uma norma do Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente que está causando grande reboliço. Vinicius Marins conversa com Vitor Azambuja sobre o assunto.
quinta-feira, 17 de julho de 2014
A nova onda dos musicais nacionais
Durante a
pesquisa para minha monografia de graduação, pude atestar que, com toda nossa
permeabilidade à cultura norte-americana, quando o assunto é música preferimos
a brasileira mesmo. Ao contrário do cinema, com suas salas multiplex exibindo
10 blockbusters made in U.S.A. para cada
um ou dois filmes brasileiros (mesmo assim, em horários ingratos, às duas ou
três da tarde), a música produzida no Brasil sempre esteve em 1º lugar, seja em
vendas, seja em execução pública nas rádios. Isso quer dizer que, em terras brasilis, Nelson Gonçalves vende mais que Elvis Presley e
Roberto Carlos mais que os Beatles. Tonico
e Tinoco, a dupla
sertaneja recordista absoluta, com 150 milhões de cópias vendidas, bate Nirvana,
Queen, Elton John, Michael Jackson e Amy Winehouse, juntos. Isso, sim, é goleada!
Portanto, além
do futebol, a Música Popular Brasileira é preferência nacional, o que deixa
mais fácil entender dois fenômenos recentes. O primeiro, do início dos anos
2000, é a onda dos documentários sobre personalidades da nossa música: Vinicius (sobre o poetinha Vinicius de
Moraes), Ninguém Sabe o Duro que Dei
(sobre Wilson Simonal), Lóki (sobre o
mutante atormentado Arnaldo Baptista) e O Homem que Engarrafava Nuvens (sobre o doutor do baião, Humberto Teixeira) são
alguns dentre outras produções que arrastaram milhares de pessoas aos nossos cinemas
para prestigiar um gênero pelo qual nem sempre morrem de amores. Isso sem
falar nos documentários dramatizados - ou cinebiografias - como Cazuza: o tempo não para, 2 filhos de Francisco (sobre Zezé de Camargo e Luciano), Gonzaga de pai para filho (sobre Luiz
Gonzaga e Gonzaguinha) e Somos Tão Jovens
(sobre Renato Russo, da Legião Urbana). Os últimos arrastaram não milhares, mas
milhões de pessoas para prestigiarem seus ídolos na frente da telona.
O segundo
fenômeno mostra-se incipiente e é sempre mais difícil falar sobre algo muito
recente. Entretanto, não precisa ser gênio para perceber que os musicais teatrais
sobre artistas da MPB já são uma febre com potencial de contágio maior que gripe
no inverno. Para assistir Cazuza:
o musical, precisei comprar ingressos com mais de três semanas de
antecedência, mesmo com o espetáculo há um bom tempo em cartaz. O teatro em que
estava sediada a produção (NET Rio, em Copacabana) tem capacidade para 622
pessoas e o espetáculo contava com quatro apresentações semanais (quinta,
sexta, sábado e domingo). Cazuza
agora está com sessões extras no Vivo Rio, que tem capacidade para, pasmem, 5
mil pessoas! É muita coisa
para os padrões de audiência do teatro brasileiro. Com os musicais Milton Nascimento: Nada Será como Antes (que estabelece um fio
narrativo imaginário entre canções do compositor mineiro, sem nenhum diálogo), Elis, A musical e Tim Maia: vale tudo, a mesma coisa – e para esses nem consegui
ingressos, mesmo com tentando com boa antecedência.
Cazuza me surpreendeu de forma extremamente
positiva: antes de assisti-lo, achava que sua vida já havia sido bastante explorada
nos últimos tempos e que um musical seria mais uma variação sobre o mesmo tema.
Mas estava enganado: o musical tem produção de nível Broadway, com grandes
atores e grandes cantores, além das ótimas canções esperadas. O roteiro,
inclusive, corrige injustiças históricas que o filme de 2004, dirigido por
Sandra Werneck e Walter Carvalho, havia cometido ao omitir os nomes de Ney
Matogrosso e Lobão da vida do maior poeta do rock brasileiro nos anos 80. Foi ali que comecei a entender os motivos de
tanto bafafá em torno dos musicais.
Peguei
gosto pelo formato, até então desconhecido por mim e pela maioria dos
brasileiros, e fui para São Paulo assistir Rita
Lee mora ao lado. Em cartaz no Teatro das Artes, o musical sobre a rainha
do rock brasileiro (e já que falamos em números, a quarta maior vendedora de
discos da história, com 55 milhões de cópias) dá um passo adiante de seus
predecessores ao inserir elementos de ficção em sua narrativa biográfica. Na
verdade, o musical parte de uma adaptação da biografia homônima de Henrique Bartsh, cujo lançamento pela Panda Books, em 2006, Rita só autorizaria
se “não fosse careta” porque “biografia é coisa de defunto”, nas palavras da
própria.
O autor não deixou por menos: subverteu os padrões do formato e criou a história paralela de Bárbara Farniente, “vizinha” de Rita desde criança, que observava pela janela a vida daquela ruivinha magrela na casa ao lado. A relação entre as duas protagonistas vai tomando ares parecidos com a dos personagens Mozart e Salieiri no filme Amadeus, de Milos Forman (1984), com a diferença que Rita não toma conhecimento da existência de Bárbara. Inevitável não lembrar do trecho dito por Salieri ao final do filme, clamando e absolvendo toda a mediocridade do mundo.
O musical é bem menos amargo. A personagem fictícia Bárbara sempre se julgou medíocre e invejava todas as conquistas notáveis que Rita Lee teve ao longo da vida, vivendo continuamente à sombra da imagem idealizada de sua vizinha famosa. Porém, quando as duas finalmente se conhecem no camarim de um show, é Rita quem aponta o óbvio: "Ó, você é muito mais louca que eu, hein? Vai brilhar! Vamos trocar de papéis: é a minha vez de ser careta e ficar dentro de casa." Hoje, Rita é uma senhorinha de cabelo vermelho fogo e tênis AllStar, que largou todos os excessos e que gosta de observar a vida das pessoas nas novelas. De certa forma, o musical deixa em aberto a possibilidade da inveja ser mútua: em algum momento, também os famosos anseiam por uma vida tranquila, anônima e familiar.
Alguns dos
principais fatos da vida de Rita Lee estão presentes: a ascensão dos Mutantes,
o casamento com o guitarrista Roberto de Carvalho, a gravidez inesperada, a
prisão por porte ilegal de drogas, a morte da irmã. A atriz Mel Lisboa (que se
lançou anos atrás na minissérie “Presença de Anita”, na Rede Globo) está de
volta e encarna com perfeição o sotaque paulista, os trejeitos, a ironia e todo
o deboche da rainha do rock. Outro destaque inusitado é o ator Fabiano Augusto,
mais conhecido como garoto propaganda das Casas Bahia, no papel de ninguém mais,
ninguém menos que Ney Matogrosso (olha ele, de novo), inclusive emulando bem sua voz de contratenor.
Se o nosso futebol anda meio mal das pernas, os musicais nacionais vão muito bem, obrigado. E vocês podem ter certeza de que ainda vão pipocar muitos deles por aqui, porque se tem uma coisa que não falta nesse Brasilzão adentro é talento pronto para trazer aos nossos palcos a vida e a obra de um monte de craques, sob medida para serem homenageados no teatro mais perto de você.
sábado, 21 de junho de 2014
Ainda não completei o álbum
por Thiago Ortman
A Copa segue e parece vibrante para
todos os lados. Desde os chilenos, que invadiram o Rio de Janeiro e,
literalmente, o Maracanã, até os manifestantes que optaram pelo
jogo político, em meio ao cerco de policiais que se apresentam em
número incontável e com assiduidade implacável.
Mesmo estando no meio de dois mundos,
entre os que assistem os jogos e os que se manifestam a custo de
assistir quase nada, o que tem me deixado mais tenso nos últimos
dias é que a Copa está passando e eu ainda não completei o meu
álbum. Ok, deixando a ironia de lado, é verdade que estou
colecionando figurinhas. Para muitos amigos que bradam “Fifa go
home”, isso é uma heresia. Talvez seja mesmo, mas existe uma
nostalgia que me faz passar de corpo e alma por tudo que esta Copa
significa, mesmo que pareça um tanto contraditório.
Faço os álbuns da Copa desde 94,
tempos de Romário e Bebeto, quando as figurinhas ainda eram coladas
na base da cola Pritt. Meus pais me incentivavam a ir em frente,
colando os Lalas e Valderramas* da vida, mas não me passavam aquele
espírito “fominha” de fechar todas as páginas e ter um álbum
completo. Aprendi isso por conta própria em 2002, quando ainda não
tinha meu próprio salário e enchia a paciência do meu pai para
comprar, no mínimo, 20 pacotinhos todo domingo – na época que
cada pacote era baratinho.
![]() |
| 94, Dieguito ainda estava lá. |
Sendo assim, de 2002 para cá tenho
tudo completo, mesmo que, dentro de minha senhora desorganização,
não saiba dizer ao certo aonde cada álbum está, com certeza em
algum lugar do meu bagunçado quarto. Até duas Copas atrás, quando
cursava o último ano do ensino médio, costumava trocar figurinhas a
rodo com o pessoal do colégio. Acho que rolava até um bafo, mesmo
que fosse coisa muito mais comum a gerações passadas. Na última
Copa, cursando meu terceiro período de Comunicação Social na PUC,
ainda era bem fácil trocar, mas agora, que já não tenho a
assistência paterna para a compra, que trocar figurinha não está
incluído na minha rotina, nem nos locais que convivo, meu ritmo está
lento.
Iniciei a jornada gastando meu salário
sem notar pelos pacotinhos de 1R$. A pilha de repetidas começou a
crescer rapidamente – o que me deixou nervoso, em parte porque via
meu dinheiro indo embora, em parte porque as repetidas aumentavam e
não havia troca. Então descobri um amigo para trocar e lá na
Gloria, onde fiz minha primeira troca: mais de 50 figurinhas. Para
quem não tinha sequer a metade do álbum (que tem mais de 600), foi
um sucesso absoluto. Naquele mesmo dia, o amigo falou que ali perto
havia um ponto de troca e que vendiam o álbum completo por um preço
alto (passei por lá e vi um rapaz vendendo com uma placa “Full
Album R$700”, ahhh!).
Mas só um amigo não seria suficiente
e a Gloria era distante para fazer trocas. Então reativei uma conta
no trocafigurinhas.com. Pois é, em algum momento na última Copa,
devo ter trocado figurinhas por ali, um site de troca de figurinhas
pela web. Doidera! Foram duas semanas indo aos correios e trocando
figurinhas com gente de São Paulo e de outros bairros distantes do
Rio (mais longe do que isso eu não botava fé. Imagina, trocar com
gente do Acre? Até minha correspondência chegar lá, o cara já
teria completado o álbum). Nesse meio tempo, saíram notícias no
jornal falando da febre e alguns pontos de troca, o mais próximo no
Shopping Leblon, mas já não tenho paciência para shoppings, para
trocar figurinhas, então, seria o cúmulo.
Um dia, passeando com o Quino, meu
beagle, passei por uma esquina coalhada de gente de todas as idades.
Precisei de algumas semanas até tomar coragem. Cheguei a entrar no
supermercado que fica ao lado, antes de parar e perguntar “alguém
quer trocar?” Até que perdi a vergonha e o que achei que seria
rápido me tomou mais de duas horas, olhando bolinhos de figurinhas e
pegando todas que necessitava.
No primeiro dia consegui mais de 100
(sendo que quando pisei lá faltavam mais de 180) e conheci todo tipo
de gente: uma moça estava “substituindo” o marido, que estava
com a perna quebrada; uma senhora estava ajudando o sobrinho, que
levou o álbum à uma festa e foi roubado; um cara tinha um fichário
com zilhões de figurinhas – provavelmente já tinha completado
vários e devia estar fazendo um mercado negro com eles; gente que já
estava completando o segundo álbum, além de uma criançada boa, que
me fez lembrar ainda mais da minha primeira coleção de 94.
Estou sem tempo para retornar àquela
esquina, mas sei que existem retardatários como eu. Ei de fechar até
o fim da primeira fase, não teria heresia maior do que pedir as
figurinhas que me faltam para a Panini, editora que organiza o álbum.
A verdade é que a gente cresce, gosta menos ou mais da Copa do
Mundo, mas a vontade de colecionar estará sempre ali. Talvez na
próxima eu me convença que já tenha passado “da idade”, mas aí
eu invento que é para um sobrinho, que foi roubado numa festa.
![]() |
| *Referência a Alexi Lalas e Carlos Valderrama, jogadores emblemáticos por seu visual e qualidade de futebol, que defenderam os EUA e a Colombia, respectivamente, em 1994. |
quinta-feira, 22 de maio de 2014
Rubem Fonseca e o poeta
por Leandro Müller
Queridíssimo
Lerme
Você é apenas um bebê e ainda vai levar
alguns anos até que alcance o entendimento das coisas que tratarei aqui, mas
como seu tio e padrinho, quando recebi o convite para escrever um pouco sobre
Rubem Fonseca, foi em você que pensei para explicar as razões do porquê
conhecer a obra desse escritor.
Com o passar dos anos, você perceberá
que não faltarão pessoas te dizendo para ler, e indicando o que ler (geralmente
tentando obrigá-lo). Contudo, a maioria não te convencerá. Eu mesmo passei
incólume pelos livros até o início da vida adulta. Só mais tarde me dei conta de
que a literatura não está só nos livros, ela se esconde nas estórias, pode ser
um filme, uma série, um jogo, uma música. Ela nasceu na tradição oral e foi se
adaptando, se apropriando dos suportes que a tecnologia inventava. Por isso,
Lerme, gostaria que você soubesse que ler nada mais é que escutar uma
narrativa.
Entre esses que contam estórias
(fictícias ou reais), devemos escutar a dois tipos de pessoas: as que têm
paixão por seu tema (e falam sobre ele com entusiasmo) e aquelas que sabem do
que estão falando, que conhecem o assunto sobre o qual discorrem, ou que ao
menos acreditam verdadeiramente conhecê-lo. Rubem Fonseca pertence
simultaneamente a essas duas categorias.
Seu notório conhecimento sobre os temas
a que se dedica fica evidente em um conto, ou quase novela, chamado Romance
Negro, onde faz citações de inúmeros escritores habilidosos, entremeados por
uma verdadeira aula de história do gênero policial. Somos convidados a um jogo
de adivinhação enquanto aprendemos a distinguir as diferenças entre a escola
americana e a escola inglesa de tal literatura “obscura”. Um prato cheio para
quem gosta de aprender com quem sabe, como eu.
Os
especialistas na obra deste escritor irão apontar várias virtudes em seus
textos (e até alguns defeitos, dependendo de quem for o crítico). Mas não é por
causa do que eles dizem que você deve ler, e sim pelo próprio autor, porque ele
é capaz de capturar exatamente o que sentimos. Por exemplo, veja esse trecho do
conto O Cobrador, que parece ser o predileto da maioria e que está presente
obrigatoriamente em tudo que se diz sobre o Fonseca: “A rua cheia de gente. Digo, dentro da minha cabeça, e às vezes para
fora, está todo mundo me devendo! Estão me devendo comida, buceta, cobertor,
sapato, casa, automóvel, relógio, dentes, estão me devendo.(...) Tão me devendo
colégio, namorada, aparelho de som, respeito, sanduíche de mortadela no
botequim da rua Vieira Fazenda, sorvete, bola de futebol. (...) Estão me
devendo xarope, meia, cinema, filé mignon e buceta...” Espero que nunca aconteça
para você o dia em que achará que a
sociedade lhe deve, e que chegou a hora de cobrar. E espero que não se utilize jamais
das mesmas vias que o personagem deste conto.
Agora vou lhe contar como esse autor
realmente me arrebatou. Foi numa tarde comum, no meio de uma semana ordinária,
nos meus saudosos dias de livreiro, que o leitor Rubem Fonseca entrou na
livraria e me pediu que lhe indicasse a seção de poesia, para onde o conduzi.
Um tempo depois, já novamente imerso nas atividades da lida cotidiana, senti
que ele me tocava calmamente o ombro, com um sorriso de menino, chamando-me a
atenção para os livros que levava: poetas ingleses românticos. Foi ali que me
dei conta de algo maior, que me revelou a verdadeira razão para se ler aquele
escritor...
Você gosta de segredos, Lerme? Então, preste
atenção, porque este pouca gente conhece: apesar de o definirem como pai do romance
policial no Brasil, na verdade, Rubem Fonseca é um poeta. Um poeta apaixonado.
Não sei disso simplesmente pelo sem número de vezes que poetas e poemas se
escondem sutilmente em suas obras, como Baudelaire* e Camões**, mas pela forma
como desenvolve temas propriamente poéticos, como o fascínio pelos ossos
ressaltados das mulheres, que só um poeta consegue admirar e que ele deixa à
vista nos contos Mandrake, O corcunda e a Vênus e no já mencionado Romance
Negro. O fascínio é um sentimento lindo e raro (muitas vezes confundido com a
obsessão, mas sobre isso conversamos em outra ocasião), principalmente neste
mundo em que rapidamente nos acostumamos a tudo. Nunca devemos perder a
capacidade de nos pasmar!
Foram essas circunstâncias, Lerme, que
me levaram a gostar do Rubem Fonseca. Espero que elas sirvam de guia para que
você encontre suas próprias razões para também apreciá-lo, e a outros autores
que venham a ser seus favoritos.
Notas:
Comece por este aqui: 64 contos, Rubem Fonseca. São Paulo: Companhia das Letras, 2004, mas
não deixe também de ler os romances Bufo & Spallanzani e Diário de um
Fescenino.
Notas:
*O
Baudelaire escondido:
“(...)
vendo-a distanciar-se agile e noble, avec as jambe de statue, até que ela
desapareceu no meio da multidão.” (Mandrake. p.309.)
BAUDELAIRE,
Charles. As flores do mal. Tradução, introdução e notas de Ivan Junqueira.
Edição biligue. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985.
XCIII
A
une passante
La
rue assourdissante autour de moi hurlait.
Longue, mince, en grand deuil, douleur majestueuse,
Une femme passa, d'une main fastueuse
Soulevant, balançant le feston et l'ourlet;
Agile
et noble, avec sa jambe de statue.
Moi,
je buvais, crispé comme un extravagant,
Dans son oeil, ciel livide où germe l'ouragan,
La
douceur qui fascine et le plaisir qui tue.
Un éclair... puis la nuit! - Fugitive beauté
Dont le regard m'a fait soudainement renaître,
Ne
te verrai-je plus que dans l'éternité?
Ailleurs, bien loin d'ici! trop tard! jamais
peut-être!
Car
j'ignore où tu fuis, tu ne sais où je vais,
O
toi que j'eusse aimée, ô toi qui le savais!
|
XCIII
A
uma passante
A
rua em torno era um frenético alarido.
Toda
de luto, alta e sutil, dor majestosa,
Uma
mulher passou, com sua mão suntuosa
Erguendo
e sacudindo a barra do vestido.
Pernas
de estátua, era-lhe a imagem nobre e fina.
Qual
bizarro basbaque, afoito eu lhe bebia
No
olhar, céu lívido onde aflora a ventania,
A
doçura que envolve e o prazer que assassina.
Que
luz... e a noite após! – Efêmera beldade
Cujos
olhos me fazem nascer outra vez,
Não
mais hei de te ver senão na eternidade?
Longe
daqui! tarde demais! "nunca" talvez!
Pois
de ti já me fui, de mim tu já fugiste,
Tu
que eu teria amado, ó tu que bem o viste!
|
**O
Camões escondido:
“Isso
aqui: transforma-se o amador na coisa amada, por virtude de muito imaginar...
que mais deseja o corpo alcançar? Que diabo o poeta quer dizer com isso?” (O
corcunda e a Vênus de Botticelli. p.720.)
Luís
de Camões
Transforma-se
o amador na cousa amada,
por
virtude do muito imaginar;
não
tenho logo mais que desejar,
pois
em mim tenho a parte desejada.
Se
nela está minha alma transformada,
que
mais deseja o corpo de alcançar?
Em
si somente pode descansar,
pois
consigo tal alma está liada.
Mas
esta linda e pura semidéia,
que,
como o acidente em seu sujeito,
assim
co’a alma minha se conforma,
está
no pensamento como idéia;
[e]
o vivo e puro amor de que sou feito,
como
matéria simples busca a forma.
quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014
Um empreendedor nômade no mundo da música
por Thiago OrtmanO cineasta francês Vincent Moon é provavelmente o maior nômade da música atual. Surgiu para o mundo com uma ideia simples e inovadora: filmar artistas famosos fazendo sua música nas ruas. Em 2007, com o selo/site La Blogothèque, colocou o jovem Zach Condon, mais conhecido como Beirut, para cantar e tocar seu trompete em meio aos cafés parisienses. Em 2008, acompanhou a banda indie Arcade Fire durante a turnê do álbum Neon Bible e registrou tudo no making of Mirror Noir. Seu estilo de “videoclipe” ficou mundialmente conhecido, e foi replicado em todos os cantos.
No fim de 2008, Moon partiu para uma
nova investida e iniciou uma jornada sem fim pelo planeta - pelo
menos até o momento. Partia de um canto ao outro com seu mochilão,
filmando tudo que considerava relevante relacionado à música. Fez
uma travessia pelos mais distintos estilos musicais, visando em
especial os artistas alternativos e de cancioneiro regional.
Três anos mais tarde, Vincent Moon
lança a Collection Petites Planètes (Coleção Pequenos Planetas,
ao pé da letra). O francês basicamente deu nome aos bois e criou uma
marca para a exploração etnográfica musical que já estava fazendo
há algum tempo. Polonia, Chile, Brasil, Islândia, Singapura,
Austrália e Filipinas foram alguns dos países que Vincent cruzou
para registrar suas raízes musicais tradicionais.
Com um estilo visual próprio, muito
contraste e priorizando as cores amarela e preta, o cineasta
independente trabalha solitário ou com pessoas com quem faz
amizade no caminho. Em sua primeira passagem pelo Brasil, entre 2010
e 2011, Vincent selecionou um repertório amplo de artistas, que
passava por ícones como Ney Matogrosso, Tom Zé e Naná Vasconcelos,
além de encontrar jovens apostas, como a finada banda carioca
Letuce, o multi-instrumentista paulista M. Takara, e a ainda
desconhecida Gaby Amarantos.
Moon retornou ao país no ano passado
para filmar gente que hoje tem sua carreira mais consolidada, como
Criolo, BNegão e Metá Metá – a série chama-se Sons do Brasil
2013. O mais interessante nos registros do francês é que, muitas
vezes, ele faz com que seus “personagens” encontrem um lugar
afetivo no registro. No vídeo com
Criolo, ele filma o rapper numa roda de samba no Grajaú (de São Paulo), seu local
de nascença, para depois mostrá-lo ao lado do amigo, Projota,
também rapper, no bairro
paulista, em um show
emocionante.
Através dessa série imensa de vídeos,
Vincent Moon abre frente para um tipo de arquivo musical que
harmoniza com os intuitos da web. O francês colabora para gerar um
acervo audiovisual fundamental para a música mundial, e tudo isso
com creative commons, isto é, com licenças abertas para quem quiser
baixar os vídeos e passar para frente sem problemas. Que Vincent
prossiga registrando a música pelo mundo a fora.
Um vídeo com a extinta banda carioca Letuce, o grande Jards Macalé e Criolo:
Take Away Show _ LETUCE from Vincent Moon / Petites Planètes on Vimeo.
O PATO • a very short portrait of JARDS MACALÉ from Vincent Moon / Petites Planètes on Vimeo.
◊ Sons do Brasil 2013 ◊ CRIOLO ◊ from Vincent Moon / Petites Planètes on Vimeo.
Entrevista com Vincent:
Viajantes | Vincent Moon from horto filmes | clara cavour on Vimeo.
quarta-feira, 22 de janeiro de 2014
AlCast 011: O Novo Velho
Versão integral (42 min.) || Clique para baixar a mp3 da versão integral
Versão curta (31 min.) || Clique para baixar a mp3 da versão curta
Lunáticos, ouvintes e leitores, este é o AlCast sobre novas velharias e velhas novidades. Tati Laai, Raphaela Leite, Thiago Ortman e Victor Mattina conversam sobre a mania em olhar para o passado em busca de novidades, o valor do vintage, colecionar vinis e muitos mais.
sexta-feira, 3 de janeiro de 2014
Pra fechar um ano que já se foi
2013 passou rápido como qualquer outro. E o que resta dos últimos dias – além de champagne e rabanada – são aquelas listinhas de músicas, livros e filmes, que na maior parte das vezes servem para entreter uma meia dúzia e seu autor. Porém, desta vez, talvez eu não queira fazer uma lista musical (algo que você pode achar aqui), mas um comentário mais amplo sobre um ano que começou timidamente e terminou com gosto de trabalho bem feito. Então, podemos considerar que farei uma breve retrospectiva das melhores coisas na música.
Vale começar com Vampire Weekend,
banda de rock que em seu terceiro álbum finalmente vingou, ao menos
para mim. Aliás, apesar de ter dito “rock”, algumas vezes em
que ouvi The Modern Vampire of the City, de algum jeito
estranho a banda conseguia deixar o termo em suspenso. As guitarras
que marcavam os hits de trabalhos posteriores (Cousins, A-Punk) foram
suprimidas por sintetizadores, teclados, pianos e banjos, mas não é
pela falta (ou pouco uso) delas que o VW deixou de produzir um som
que possa ser designado nas revistas de música como “rock”, a
energia de Diane Young e a densidade de Hudson que o
digam.
Então, vem a perspicácia do músico Kieran Hebden, conhecido como Four Tet, que em um ano lançou dois trabalhos impressionantes. O primeiro, em janeiro: 0181 é uma compilação de trabalhos realizados por ele de 1997 à 2001. Uma faixa única, de pouco menos de 40 minutos, que reúne o passeio sonoro por gêneros. É uma espécie de nuvem que vai coletando informações de diferentes tempos e interesses – dentro dos quatro anos que comportam o trabalho de arquivo. Em outubro, veio a segunda pedrada: Beautiful Rewind é um trabalho recente, onde todas faixas são e não são hits. Como Four Tet sabe ser, os samples são quase sempre competentes e a frequência rítmica vai de encontro às pistas de dança, às vezes bem anos 90 (e o início das raves inglesas), a todo tempo bem atual – mas também atemporal, sem que tal adjetivo queira soar prepotente.
O pop realmente parece ter se
resolvido, ou ao menos está a caminho disso. Em 2010, a cantora
Janelle Monáe já havia acertado em trazer à tona um pop futurista
que flertava com a black music do seu e de outros tempos. O álbum de
2013 (The Electric Lady) não teve a mesma inspiração, em
especial se compararmos com a primeira parte de The 20/20
Experience, álbum brilhante de Justin Timberlake, que após
muito alarde realmente honrou seu tempo de maturação (7 anos). Não
seria demais apontá-lo como um passo importantíssimo para a
sobrevivência do pop de qualidade. Colocar a primeira parte do
trabalho ao lado do brilhantismo de gente como Michael Jackson,
Prince, Stevie Wonder não seria exagero - artistas aos quais o
próprio Justin faz menções. Das “20 experiências”, considero
as 10 primeiras fundamentais para o legado da música pop daqui pra
frente, pois certamente virá mais, do próprio e de quem esteja tão
comprometido e influenciado
como ele.
Outro artista que caminhou pela seara
da pop music no últimos anos é o rapper Kanye West. Mas este
resolveu produzir experimentações em Yeezus. Já vi gente
acusando a faixa Black Skinhead de plágio do clássico Beautiful People, de Marilyn Manson. Pelo que se nota e se supõe
de Yeezus, é que KW o fez plenamente consciente, e mais, ele
deve estar bem feliz pelas acusações - afinal, pra quem não sacou
o disco e as ideias do criador, elas vão bem por aí.**
Entre os brasileiros, confesso que este ano os deixei um pouco de lado. Fato é que pouca coisa “dos melhores brasileiros do ano” dos sites que tem por aí me interessava. No entanto, Passo Torto, Thiago França e São Paulo Underground impressionaram - todos de São Paulo. Passo Torto produziu o álbum Passo Elétrico, aclamado pela crítica. A meu ver, não chega aos pés do homônimo de 2011. SP Underground, trio de jazz avant-garde lançou um grande álbum de música instrumental, provavelmente o melhor da carreira de quatro discos do grupo. Nos últimos dias do ano surgiu a homenagem do saxofonista Thiago França aos 50 anos de lançamento do livro Malagueta,Perus e Bacanaço, clássico da boemia paulista de João Antônio. Assim como a literatura de João Antônio, as músicas de Thiago França me acertam a alma desde Sambanzo, disco do ano passado sobre o qual escrevi um textinho no Saxpax.
Por fim, esboço alguns elogios aos
dois melhores trabalhos do ano. P.A. / Hard Love e Nocturnes,
de Marina Rosenfeld e William Basinski, respectivamente. São dois
filmes de terror em suas maneiras de agir. O primeiro é um terror
urbano, que usufrui da paisagem nova iorquina para assassinar (ou
distanciar) a canção, e fazer existir o barulho. O segundo é um
terror espacial, onde a chave é a repetição da fita, repetição
incessante de um mesmo barulho, com a mixagem em sua maneira mais
brutal. É aí que a gente conclui que “barulho” é um elogio, e
sempre foi, na verdade, embora as pessoas teimem em não acreditar.
*alusão ao título com 10 faixas em
cada álbum.
** pesquisando por aí, parece que o
artista de Mashups Girl Talk resolveu conceber a piada:
http://www.spin.com/articles/girl-talk-kanye-marilyn-manson-mashup/
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